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23/01/2019 | domtotal.com

E Ítalo fez um yakisoba

Ítalo se movia entre as facas e panelas, titubeante.

Vários ingredientes chiavam na panela que Ítalo manipulava com habilidade inédita aos olhos da mãe.
Vários ingredientes chiavam na panela que Ítalo manipulava com habilidade inédita aos olhos da mãe. (AFP)

Por Pablo Pires Fernandes*

Chovia e Juliana chegou em casa molhada, como as compras em seu colo. Depois de intenso dia no salão – tinha cortado o cabelo de uns oito ou nove clientes –, deu um longo suspiro ao fechar a porta de casa. Soltou um “alô” e Ítalo respondeu da cozinha um “ei, mãe”. Ao depositar a feira na pia, viu o filho com os olhos fixos na faca e na cebola que fatiava.

“Vai fazer o quê?”

“Yakisoba.”

“Oba, estou morrendo de fome.”

Nos 17 anos da vida daquele menino – ela sabia que Ítalo já não era menino, mas adiava admiti-lo homem –, Juliana nunca tinha visto ele cozinhando. Guardou as compras em silêncio, contendo a curiosidade e o orgulho de mãe. Saiu da cozinha sem dizer nada e deixou o jovem descascando cenouras.

Olívia, a filha mais nova, chegou esbaforida, largou a mochila na sala e se trancou no quarto teclando o celular. Alexandre, o pai, só chegaria mais tarde – horário de trabalho ingrato, sempre diz. O jantar não espera por ele.

Enxugando os cabelos, Juliana entrou na cozinha, como quem não quer nada, e provocou o filho:

“Tô com fome.”

Ítalo se movia entre as facas e panelas, titubeante. Ela notou, no entanto, que todos os ingredientes estavam rigorosamente picados e dispostos sobre a tábua de madeira.

“Quer ajuda?”, a mãe não pôde evitar a pergunta.

“Quero. Fica aqui do meu lado e me diz se estou fazendo direito.”

Juliana estava pasma com a destreza do filho. Naquele momento, vários ingredientes chiavam na panela que Ítalo manipulava com habilidade inédita aos olhos da mãe.

“Onde aprendeu isso, filho?”

“Na televisão, assisto a uns programas de culinária. Quero ser chef de cozinha.”

Surpresa, a mãe questionou:

“As coisas da televisão são diferentes da realidade, você sabe, né?”

“Sei mãe. O que acho estranho são essas coisas da internet. Tem umas propagandas que falam de alimentos milagrosos, falam que vão resolver todos os problemas de saúde. Tipo emagrecer, curar colesterol e tal. Sei que é só propaganda. E tem outros que dizem que gengibre, pimenta e outras coisas fazem mal. Sei que é uma coisa de televisão e de internet. Mas tem um lado que acho bacana. A comida, os alimentos que a gente come, podem ser bons, é importante. Melhor do que comer enlatado, né?”

“Claro, filho. Enlatado é horrível. O melhor é fazer a própria comida.”

“Olha se o macarrão cozinhou aqui, mãe”

Juliana provou e, embora um pouco além do ponto, disse que estava ótimo. Ajudou Ítalo finalizar o yakisoba e chamou Olívia para jantar. Mas, sentados à mesa, a mãe não resistiu à pergunta mais importante.

“Ítalo, de onde você tirou a ideia de cozinhar e ser um chef?”.

“Da vovó”.

Chovia e Juliana chegou em casa molhada, como as compras em seu colo. Depois de intenso dia no salão – tinha cortado o cabelo de uns oito ou nove clientes –, deu um longo suspiro ao fechar a porta de casa. Soltou um “alô” e Ítalo respondeu da cozinha um “ei, mãe”. Ao depositar a feira na pia, viu o filho com os olhos fixos na faca e na cebola que fatiava.

“Vai fazer o quê?”

“Yakisoba.”

“Oba, estou morrendo de fome.”

Nos 17 anos da vida daquele menino – ela sabia que Ítalo já não era menino, mas adiava admiti-lo homem –, Juliana nunca tinha visto ele cozinhando. Guardou as compras em silêncio, contendo a curiosidade e o orgulho de mãe. Saiu da cozinha sem dizer nada e deixou o jovem descascando cenouras.

Olívia, a filha mais nova, chegou esbaforida, largou a mochila na sala e se trancou no quarto teclando o celular. Alexandre, o pai, só chegaria mais tarde – horário de trabalho ingrato, sempre diz. O jantar não espera por ele.

Enxugando os cabelos, Juliana entrou na cozinha, como quem não quer nada, e provocou o filho:

“Tô com fome.”

Ítalo se movia entre as facas e panelas, titubeante. Ela notou, no entanto, que todos os ingredientes estavam rigorosamente picados e dispostos sobre a tábua de madeira.

“Quer ajuda?”, a mãe não pôde evitar a pergunta.

“Quero. Fica aqui do meu lado e me diz se estou fazendo direito.”

Juliana estava pasma com a destreza do filho. Naquele momento, vários ingredientes chiavam na panela que Ítalo manipulava com habilidade inédita aos olhos da mãe.

“Onde aprendeu isso, filho?”

“Na televisão, assisto a uns programas de culinária. Quero ser chef de cozinha.”

Surpresa, a mãe questionou:

“As coisas da televisão são diferentes da realidade, você sabe, né?”

“Sei mãe. O que acho estranho são essas coisas da internet. Tem umas propagandas que falam de alimentos milagrosos, falam que vão resolver todos os problemas de saúde. Tipo emagrecer, curar colesterol e tal. Sei que é só propaganda. E tem outros que dizem que gengibre, pimenta e outras coisas fazem mal. Sei que é uma coisa de televisão e de internet. Mas tem um lado que acho bacana. A comida, os alimentos que a gente come, podem ser bons, é importante. Melhor do que comer enlatado, né?”

“Claro, filho. Enlatado é horrível. O melhor é fazer a própria comida.”

“Olha se o macarrão cozinhou aqui, mãe”

Juliana provou e, embora um pouco além do ponto, disse que estava ótimo. Ajudou Ítalo finalizar o yakisoba e chamou Olívia para jantar. Mas, sentados à mesa, a mãe não resistiu à pergunta mais importante.

“Ítalo, de onde você tirou a ideia de cozinhar e ser um chef?”.

“Da vovó”.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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