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25/01/2019 | domtotal.com

Manias na rede

Um instante vivido com emoção e depois guardado para sempre na memória não é mais precioso do que aquele salvo num chip?

Descuido ou intencional? Vocês decidem
Descuido ou intencional? Vocês decidem (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Está no ar a nova e irritante mania: filmar e fotografar momentos ansiosamente, ao invés de vivê-los. Lembrei-me de um teatrinho infantil ao qual compareci para prestigiar uma criança da família. Quase não pude me divertir com a fantástica interpretação da Tartaruga Madalena tamanha a quantidade de pais, mães, tios e avós na plateia – e de pé na minha frente, ensandecidos no manuseio de seus celulares. Um instante vivido com emoção e depois guardado para sempre na memória não é mais precioso do que aquele salvo num chip?

Desde o tempo em que eu era hippie, frequentava festivais de rock na ilha de Wight e morava em comunidades alternativas, defendo com veemência o sacrossanto direito de se andar pelado em casa, na praia, na rua, na chuva ou na fazenda. Apenas recomendaria comedimento em áreas urbanas ou densamente povoadas, para não escandalizar velhinhas simpáticas rumo à missa ou para evitar a condução coercitiva a bordo de uma viatura policial.  

Escravos das fotos de celular e das redes, atores, famosos e outros nem tanto, agora adotaram a moda das fotos peladas. Sozinhos ou com seus parceiros, gastam horas com o celular na mão treinando poses e expressões sedutoras.

No caso desses selfies íntimos, repete-se a presença obrigatória dos espelhos. Ora: um espelho nada revela além de seu fiel reflexo – seja ele bonito, feio ou até grotesco. No papel de acessório das escapadas românticas e amores proibidos, o velho espelho de motel já cumpria a missão de turbinar o encontro dos apaixonados. Se o casal quisesse contemplar a cena que considerasse sexy e com ela obter mais animação na cama redonda, o espelho do teto estava ali para isso. Em casa, melhor ainda: no sagrado aconchego do lar, ambos viveriam suas fantasias livremente. Diante da porta espelhada do armário, fariam olhares sensuais, biquinhos, beijinhos no ombro e outras performances cênicas como melhor lhes conviesse:

- Agora de lado, meu bem.

- Deixa eu encolher a barriga um cadinho.

- Ah, não, querido! Deste jeito sua bunda fica frouxa.

E assim se divertiriam à vontade com o espelho cúmplice - e ninguém teria nada com isso.

Porém, a partir do momento em que a pessoa faz poses sensuais diante do espelho e se fotografa, a coisa fica esquisita. Viciados em selfies, sejam sinceros: qual o objetivo real do auto ensaio senão a possibilidade de curtidas subsequentes? Exceto para fins de comparações estéticas e dietéticas, ninguém tira foto pelado para ver sozinho; seria doideira ou narcisismo elevados à quinta potência. No caso das celebridades, o instante íntimo vira de imediato uma imagem passível de apreciação por olhos gulosos, caindo no domínio público via hacker ou – digamos assim – via um lamentável descuido que será rigorosamente investigado.

Descuido ou intencional? Vocês decidem. Deixo as questões no ar, desnudas, incapaz de respondê-las a contento. Outros pelados famosos ou anônimos virão e, com eles, os mistérios de suas mentes, músculos, cartilagens, corpos cavernosos e tecidos moles.  

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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