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29/01/2019 | domtotal.com

Ela voltou para ficar!

Desde que eu me entendo por gente, lembro-me daquele quadro pendurado na parede de sua sala em São Paulo.

'Anna Maria, pintada por C. Gomes em 1964!'
'Anna Maria, pintada por C. Gomes em 1964!' (Lev Chaim)

Por Lev Chaim*

Há quatro anos, morria a minha irmã mais velha, Anna Maria, aos 78 anos de idade, devido a complicações pós-operatórias. O seu único filho, 12 anos mais jovem que eu, muito mais irmão que sobrinho, perguntou-me se queria uma lembrança dela. À primeira vista, não tinha nada em mente. Mas logo em seguida, apareceu-me na memória um quadro com o seu retrato, pintado em 1964 pelo pintor paulistano Carlos Gomes, logo após ela ter engravidado. Isto, segundo suposição desse sobrinho, seu filho (veja a ilustração).

Desde que eu me entendo por gente, lembro-me daquele quadro pendurado na parede de sua sala em São Paulo. Eu sempre o achei lindo e, assim pensando, disse a ele que se não o quisesse, gostaria de tê-lo. Ele então me disse que o levaria para Franca e quando eu para lá fosse, poderia trazê-lo para a Holanda. Foi isso que ocorreu. Tirei-o da moldura, enrolei a tela e a prendi com um elástico e a trouxe, como bagagem de mão.  

Só dois dias depois de chegar é que fui olhá-la com atenção. Estava meio desgastada, com falhas aqui e ali e o transporte que fiz, sem colocá-la em um canudo, acabou por danificar ainda mais a pintura. A sorte foi que aqui em Heusden temos uma restauradora de quadros muito capacitada. Ela aceitou o desafio e, após três semanas, entregou-me a tela totalmente restaurada, mostrando a beleza de Anna Maria, tal como ela era naquele início de 1964. Depois, eu a levei à loja para que ganhasse uma nova moldura.

Tenho estado tão  ocupado com essa tarefa, que há várias noites sonho com ela. Às vezes, sonho com uma Anna Maria brava, temperamental, como ela era em algumas ocasiões, mas também com a Anna Maria humorada, risonha e alegre da vida, principalmente quando estava com uma alguma viagem marcada. E digo mais: essa minha irmã correu mundo, de lá para cá, e cruzou várias vezes o Oceano para conhecer lugares distantes. À Holanda, ela veio várias vezes, com o marido e depois também como viúva. Quando ía ao Brasil de férias e passava por sua casa em São Paulo, ela grudava em mim e ía junto para onde quer que eu  fosse.

Quanto mais velha ela ficava, menos temperamental ela se tornava. De uma forma ou de outra, parecia que ela já havia se acalmado de sua extrema ansiedade. Lembro-me de um dia em que ela ficou brava comigo quando disse que ela ficava feliz quando estava fora de casa. Quando não estava viajando, estava batendo pernas aqui ou ali. Vejam vocês: ela se formou em pedagogia, advocacia e administração de empresas.

Lembrei-me também de seu medo incomensurável de gatos. Quanto mais novo, pior. Aparecia um gato e a Anna Maria se punha gritar para que o tirassem do local. Talvez por causa desse seu comportamento, eu também acabei ficando com medo de gatos. Não sei, com certeza, mas pode ser. Quando muito jovem, em Franca, morávamos na mesma casa, mas não me recordo desse período. Logo mais, ela foi estudar em São Paulo, fazer faculdade, e eu a via só nas férias. Dizia aos meus amigos e vizinhos quando ela vinha de São Paulo: a Anna Maria é a minha irmã de São Paulo; que sempre usa óculos escuros de gatinho e veio passar férias em Franca. Um desses amigos, em uma brincadeira, disse uma vez para a minha angústia: “Ela parece mais a sua mãe do que a sua irmã!” Sou o caçula da família e temporão. Como a tia Sinhá dizia: “a ponta e o rabo”. E se a Anna Maria escutasse o que o meu amigo havia dito, ela daria chiliques na certa.

Tudo isso me veio à mente quando levei o quadro para ser emoldurado. Uma senhora amiga uma vez disse: “aos poucos, a vida da gente vai se tornando histórias e você vai presenciando o seu passado como uma história de alguém, não a sua própria. Quanto mais velho você fica, mais você se depara com a morte dos que estão a sua volta. É o ensaio para quando chegar a sua vez de partir desta vida.”

Por causa desse comentário, deixei o quadro restaurado guardado lá em cima e, só agora, tomei a iniciativa de emoldurá-lo. No momento, tenho que pensar onde pendurá-lo. Anna Maria, minha irmã, você voltou para junto de mim. Vai ficar grudadinha com o irmão caçula, como você mesmo dizia. Obrigado pelas boas memórias, por ter me levado ao primeiro filme dos Beatles, pelos vários Circos de Moscou e Holiday on Ice, entre tantas outras coisas. E, por último, sinto falta de sua voz, pois ela me ligava duas vezes ao dia....

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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