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29/01/2019 | domtotal.com

Sustentabilidade: palavra esgotada!?

O desafio do desenvolvimento sustentável é 'suprir as necessidades da geração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de suprir as suas'.

'Somos o país que mais preserva o meio ambiente', afirmou Bolsonaro em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos.
'Somos o país que mais preserva o meio ambiente', afirmou Bolsonaro em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos. (Isac Nóbrega/PR)

Por Rafael Furtado*

Perdendo apenas para “fake News”, o hit do momento, a palavra sustentabilidade ainda exibe seu poder e encanto sob as pessoas. Discutida nas redes, empregada nos estudos, citada em campanhas, impressa nas caixas e estampada nas camisetas. Ela está com tudo, quando se quer impressionar e deixar transparecer um “Q” de cidadão consciente e ambientalmente responsável. Nascida na cidade de Estocolmo, em 1972, a destemida palavra acumula tantas interpretações, que hoje observa atônita a ampliação excessiva de seu significado.

Ela conseguiu muito, de 47 anos atrás até hoje, é verdade! Trouxe as células fotovoltaicas, a eficiência energética, a reciclagem, o reflorestamento, a responsabilidade social e muitos outros benefícios, como só uma verdadeira unanimidade mundial poderia fazer.

A sustentabilidade, porém, nos mostra sua outra face, vazia! Em pleno século 21, como se preocupar com os níveis de eficiência energética de um prédio de alto luxo, se nas favelas ao seu redor há ainda pessoas morando em casas de papelão? Por isso, a importância de resgatar e quem sabe até ressignificar o conceito de sustentabilidade. Os pilares da sustentabilidade devem garantir, seja na engenharia, no governo, nas empresas ou mesmo na vida pessoal de cada cidadão, que o respeito com o meio ambiente e com o ser humano são elementos centrais. É o obvio que não é ou não quer ser visto. Dessa forma, por exemplo, se perseguimos a viabilidade econômica de um projeto, devemos ter em mente respeitar os impactos sociais, as relações de trabalho e os impactos humanos para que as empreitadas sejam legítimas e saudáveis. Infelizmente este é um cenário muito distante do que vemos atualmente e do que parece se desenhar para o futuro. Sem o ser humano no centro não há mesmo como as coisas darem certo a longo prazo!

No campo econômico, a palavra sustentabilidade ganha frequentemente contornos de uma simples etiqueta pendurada num produto de uma prateleira qualquer. Parece que a "hegemonia do capital sobre discernimento humano" nos levou a algo totalmente oposto ao que a sustentabilidade exige. Soa mais razoável para alguns contaminar nossos alimentos com toda sorte de venenos se as cifras do agronegócio melhorarem. Soa mais afinado relativizar questões técnicas da mais alta relevância se os licenciamentos ambientais forem expedidos sem o devido critério, apenas para impulsionar nosso crescimento industrial. Questões, por exemplo, como “trabalho com menos direitos é melhor que muitos direitos sem trabalho" não podem ser tratados de forma trivial. Certos caminhos certamente beneficiarão a economia e com sorte nos levarão a pujança, mas são contrários ao conceito que norteia uma sociedade responsável e humana! E é por isso, que com orgulho, vejo a EMGE, se opor a leviandade do "canto da sereia", e através do seu eixo direcionador, oferecer a todos uma visão mais realista e sustentável do nosso planeta e nossa sociedade.

É possível que a palavra em questão assuma novamente seu posto e norteie nossa sociedade? O cinismo dos tempos presentes, que deturba o conceito da sustentabilidade, ou mesmo o nega na integra, como exemplo, anulando todos os acordos que a humanidade já fez nesse sentido, parece dizer que não, em voz alta e clara. O reducionismo ambicioso, dos nossos atuais governantes, supõe que a resolução do problema ambiental passe pela formulação de “memes” de Whatsapp, para espanto de alguns e deleite de muitos, criando um cenário totalmente distópico, que o próprio Aldous Huxley não faria melhor, digo, pior, infelizmente.

Como engenheiros, temos que focar no problema apresentado: o desafio do desenvolvimento sustentável é “suprir as necessidades da geração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de suprir as suas". O vínculo da prosperidade, do bem estar coletivo e da saúde do planeta é inegável e inexorável. Responder este, que é um dos maiores desafios da humanidade, não deve ser tarefa relegada apenas às nossas lideranças. A sociedade pode e deve se mobilizar de forma ativa.  A tragédia de Brumadinho precisa ser uma referência para um ponto de virada no Brasil. Infelizmente, mesmo que isto aconteça, o custo desta virada já terá sido absolutamente inaceitável.

* Aluno da EMGE

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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