Brasil Cidades

30/01/2019 | domtotal.com

Sementes sob a lama

A TV exibia imagens lamacentas. Maria, então, soube onde estavam João e José.

Aquela terra era sua terra. Dizia-lhe respeito.
Aquela terra era sua terra. Dizia-lhe respeito. (Ricardo Stuckert)

Por Pablo Pires Fernandes*

O redemoinho enchia de vazio o peito de dona Maria. A notícia chegou como avalanche. Muda, ela revirava os olhos turvos diante da paisagem marron e soube o momento exato em que a chama se apagou. João e José, ela sentiu, jaziam sob a lama.

Não se sabe de onde, mas lhe veio o orgulho de mãe. Os filhos foram bem criados, pessoas dignas e honestas, tinha certeza que não ousariam qualquer falcatrua, a índole deles era boa. Reconheceu que tinha sido dura algumas vezes, sim. Os tapas e beliscões lhe doíam na consciência bem mais do que a vermelhidão momentânea na pele dos filhos, mas eles seguiam para a escola sob a sombra da montanha que outrora existia no caminho.

Mal sabiam eles a dor do parto. João então, teve nascimento difícil, o cordão umbilical enrolado no pescoço. Naquele momento, Maria pensou em muitas coisas. Na morte do filho, na própria morte, na possível “diferença” do filho e no fardo eterno a carregar. Mãe não tem escolha.

Nas últimas semanas, Dona Maria estava especialmente feliz. Nada de demência, mal se lembrava da dor naquela madrugada na maternidade. João tinha um bom emprego como contador, era responsável e trabalhador. Mas a mãe não conseguiu evitar as lágrimas quando o filho lhe comunicou o plano de casamento com Natália, moça correta, mesmo que lhe incomodasse o fato de ela ser bonita demais.

José nasceu de parto bom. Logo que o tomou no colo, soube que seria menino difícil. Foi moleque arredio, genioso e não se conformava com castigos. Com o tempo, aquietou-se. E logo tomou afeto por Ana, moça bonita e trabalhadeira.

Maria vislumbrou a alegria de Marcos, seu marido, assistindo aos netos (queria ao menos três) correndo no quintal e provocando Sanção, o pastor-alemão. A imagem era do cão de língua pra fora, exausto, e os três moleques insaciáveis, jogando a bola de meia até o fundo do quintal.

A TV exibia imagens lamacentas. Maria, então, soube onde estavam João e José. Num suspiro, segurou a dor e o desespero e caminhou até lá. Precisava encontrar os filhos. Ignorando advertências e adversidades, atolou na lama. Chorou, vociferou e praguejou contra os deuses e todos os poderes até sucumbir, exausta. “Só queria agazalhar meus anjos”, falou quando um socorrista do Corpo de Bombeiros a alcançou no atoleiro.

O jovem teve trabalho para tirar dona Maria do trágico túmulo. A senhora se debatia e gritava, a razão lhe fugia. No vale arrasado, ela feria os dedos no desespero, no desemparo e fazia ecoar os nomes de João e José. Era mãe, sabia-os soterrados. Precisava, porém, vê-los e tocá-los, uma despedida.

Aquela terra era sua terra. Dizia-lhe respeito. Nasceu ali, cresceu ali, casou-se ali e naquela terra viu os filhos se tornarem gente de bem. Então, ajoelhada na lama, a mãe chorou sobre a terra e suas sementes mortas.

*Este texto é uma ficção inspirada nos fatos e situações reais da tragédia de Brumadinho.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas