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31/01/2019 | domtotal.com

A morte que eu não queria

A Vale não valia o meu emprego. Era, na verdade, o meu destino final.

Mas na primeira garfada um barulho ensurdecedor paralisa o movimento do meu braço e em seguida uma onda medonha de rejeitos invade o ambiente.
Mas na primeira garfada um barulho ensurdecedor paralisa o movimento do meu braço e em seguida uma onda medonha de rejeitos invade o ambiente. (Ricardo Stuckert)

Por Afonso Barroso*

Minha morte não foi nada do que eu esperava. Queria morrer como morrem as outras pessoas. E queria, mais do que tudo, ter um velório decente. Não precisava ser de luxo. Podia ser um velório comum, onde pessoas comuns rodeassem contritas o meu caixão comum e orassem pela minha alma comum.

Me encantam os velórios. Me emociono com aquela solenidade ambiental, onde em geral se fala baixinho, a não ser quando aparece alguém mais exaltado, mais inconformado com o desaparecimento precoce do amigo que ali jaz.

Queria que alguns dos meus poucos amigos ali se reunissem para comentar minhas qualidades. São sempre boas as qualidades dos mortos.

Enquanto me olhassem com piedade, vendo-me esticado dentro da urna funerária, não economizariam palavras gentis para dizer que eu era um bom sujeito, que não deveria ter morrido tão cedo, que deixaria um legado de trabalho e honestidade para as futuras gerações. Seria bom ouvir comentários assim, mesmo que não fossem rigorosamente verdadeiros, mas demonstrariam respeito e apreço pela minha pessoa e pelo meu cadáver.

Inerte ali, à espera do sepultamento com hora marcada, eu ficaria feliz ao ver alguém entrando com um enorme buquê de flores sobre o qual se estendia uma faixa em que se liam estes dizeres em letras douradas: “Saudades eternas de um bom homem, bom pai, bom esposo”.

Não digo que pensava com frequência na minha própria morte. Isso só acontecia quando ia a algum velório ou tinha notícia da morte de um amigo. Na verdade, não gostava de uma coisa nem outra. Nem de ir a velórios nem de saber da morte de algum amigo. 

Quando me formei em engenharia civil, consegui logo um bom emprego. Fui trabalhar na Vale. Grande empresa, mundialmente conceituada, privatizada não fazia muito tempo. Eu gostava de carnaval, e foi no carnaval de 2003 que me entusiasmei com essa organização de origem mineira, nascida e criada em Itabira, terra das montanhas de ferro. A empresa financiou o desfile monumental da escola de samba Grande Rio, que levou à passarela daSapucaí o enredo “O Brasil que Vale”. Sob o comando do carnavalesco Joãozinho Trina, o gênio dos desfiles, os quatro mil componentes da escola cantavam e decantavam a empresa como modelo em preservação do meio ambiente. Mal sabiam que era exatamente o contrário do que dizia o samba.

Hoje, aqui neste refeitório da mina do Córrego do Feijão, eu acho que vou comer isso mesmo, arroz-com-feijão. Mas na primeira garfada um barulho ensurdecedor paralisa o movimento do meu braço e em seguida uma onda medonha de rejeitos invade o ambiente e sepulta tudo que encontra pela frente. Homens, mulheres, mesas, pratos, feijão, arroz, tudo.

É assim que acabo de desaparecer, enterrado vivo pela empresa que me empregou e agora me mata sem direito sequer a um velório de corpo presente.

A Vale não valia o meu emprego. Era, na verdade, o meu destino final. O meu enterro sem caixão, sem flores, sem orações, sem amigos    

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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