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31/01/2019 | domtotal.com

Distimia e fantasia

Nesse mar de horror, de injustiça, de absurdos nunca vistos, a depressão é um vizinho muito próximo.

São muitas as curvas dos rios.
São muitas as curvas dos rios. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Descendo para a parte de baixo da minha casa olho para um retrato dos meus finados pais impresso há pouco mais de um mês num azulejo sobre uma grande estante. Desde que esse novo objeto está por aqui procuro com meus olhos míopes os olhos deles e os cumprimento, dou bom dia , desejo do fundo do meu coração infartado que estejam bem melhores do que estamos nesse vale de lágrimas brasileiro.

Perdoem os amáveis leitores se a abertura da crônica parece dramática ou fatalista mas é que diante de tantas más novidades -desgoverno Bozo,provável eleição de Maia e Renan no Congresso, a tragédia de Brumadinho e muitas outras mais- está ficando cada vez mais difícil manter o prumo e seguir o rumo. Como disse minha prezada colega, a jornalista e fera em música Patrícia Palumbo,"nesse mar de horror, de injustiça, de absurdos nunca vistos, a depressão é um vizinho muito próximo. Tudo dói. E tem que seguir trabalhando, chamando, tentando levantar a bola... Quais as ferramentas individuais que temos? Trabalhar, cuidar da família, dos nossos animais, encontrar os amigos. Muito reforço na saúde que é pra não cair. Tá esquizofrênico...".

Sim Patrícia está esquizofrênico, aterrador. Como se estivéssemos sendo coletivamente castigados por pecados que não cometemos. Ou vai ver cometemos e não sabemos. Parece que com tanto retrocesso , tanto desapreço pelas nossas conquistas sociais, tanta falta de empatia com o próximo passamos a sofrer de distimia que, grosso modo, é a tal  forma crônica de depressão mas que dizem  menos grave do que a forma mais conhecida da doença. Afinal muitos de nós podemos estar na distimia mas nosso folclórico otimismo tropical, musical  e "caliente" ajuda nessas horas não é mesmo Patrícia e prezados ouvintes ?  De repente é a música, a boa música que a colega jornalista divulga  que vai ajudar a nos tirar desse lodo existencial. Sim , "há dias que a gente se sente , como quem partiu ou morreu" e a tal "Roda Viva" que nos cerca vem forte, tenaz, implacável. Parece que o país correto com justiça e oportunidade igual para todos é agora uma abstração cada vez mais distante.

Nesse contexto todo tem gente com medo de acordar,gente temerosa de levantar da cama, gente com medo de dormir, gente que perde o sono, gente que dorme demais. Tudo em volta do sono e das suas conseqüências.O corpo coletivo esculachando nossos corpos individuais. Nos sentimos cacarecos de nós mesmos. Aí volto a escada por onde desci olhando para o retrato dos meus pais no azulejo.Tenho que honrar a vida que eles me concederam apesar de estar ficando cada vez mais difícil estar na mesma barca com tanta gente dura, inflexível, preconceituosa e covarde. Olho o calendário e vejo longe a data do florescer das benesses. Mas, para ficar nas metáforas hidrográficas, são muitas as curvas dos rios. 

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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