Religião

01/02/2019 | domtotal.com

Francisco: o próximo papa emérito?

Na Jornada Mundial da Juventude do Panamá, que terminou no último fim de semana, Francisco disse: 'Se não for eu, Pedro vos confirmará na fé na próxima JMJ'.

Papa Francisco durante visita a Portugal, em 2017.
Papa Francisco durante visita a Portugal, em 2017. (Reuters)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Não é de hoje que Francisco sinaliza o fim do seu papado. Após ter elogiado a coragem de Bento XVI, que em 2013 disse adeus à vida agitada de um pontífice reinante, Francisco começa a se deparar não só com o mesmo peso do papado que recaiu sobre seu antecessor, mas a preparar o terreno para o seu sucessor. E como ele tem feito isso? Através das viagens que ele já programou para este ano e dos eventos importantes que ocorrerão no Vaticano - praticamente um atrás do outro. A impressão é que ele queira viver dois anos em um só. Entre os 4 países que visitará (Emirados Árabes, Marrocos, Japão e Iraque), somente Marrocos já recebeu a visita de um papa: a de João Paulo II, em 1986.

Aqueles que acompanham o atual pontificado de perto notam o desgaste de Francisco. O seu cansaço visível tem sido tema de comentários entre os jornalistas credenciados junto à Santa Sé que, a cada evento, se questionam até quando ele vai aguentar esse ritmo. É de se levar em consideração que, para um senhor de 82 anos de idade, não é nada fácil seguir a agenda rigorosa de um chefe de estado que, além disso, também é um líder religioso.

O entusiasmo de Francisco nos dois primeiros anos de governo parece dar lugar à serenidade de um ancião que se dá conta de percorrer a última etapa da sua vida a cada ano que passa. Porém, para o papa argentino “que veio do fim do mundo” - frase que ele proferiu durante sua primeira aparição como papa na sacada da basílica de São Pedro, em 2013 - é hora de desbravar novas terras pelo bem da instituição na qual ele acredita, e não só: pelo futuro do cristianismo, que padece em muitas partes do mundo.

Francisco agora lança todas as suas fichas na diplomacia, indo a lugares onde, até então, somente as cartas diplomáticas conseguiram chegar. É o caso dos Emirados Árabes, país que ele visitará neste domingo, 3 de fevereiro, a convite do sheikh Mohammed bin Zayed Al Nahyan. Até essa viagem histórica, o diálogo entre os dois países se limitou à troca de mensagens respeitosas expedidas durante o pontificado de João Paulo II entre as décadas de 80 e 90. O estabelecimento das relações entre Santa Sé e essa confederação de monarquias árabes, só veio a acontecer em 2007, durante o pontificado de Bento XVI.

“Me alegra encontrar-me com um povo que vive o presente com o olhar voltado para futuro”, disse Francisco em vídeo-mensagem por ocasião da viagem, transmitida esta semana.

Como sabemos, a diplomacia vaticana não atua em questões econômicas ou militares como acontece em outros países. Em meio às relações multilaterais e bilaterais que valida, a Santa Sé investe na força das ideias e da razão, atuando como um ente de mediação e conciliação: algo que Francisco e seu experiente secretário de estado, Pietro Parolin, fazem com maestria. E, nesse contexto, acontece essa importante viagem na qual Bergoglio participará de um encontro inter-religioso internacional sobre a fraternidade humana, em Abu Dhabi.

O papa vai a um país que tem o Islã como religião de estado e no qual, segundo a lei nacional, converter-se a uma outra religião é um ato de apostasia e um crime capital. Sendo assim, os cristãos - cerca de 700 mil distribuídos entre os 7 principados - não estão autorizados a desenvolver nenhum tipo de evangelização, uma vez que a liberdade de culto se limita à vivência da fé no interior de casas e edifícios, sendo proibido o proselitismo.

Ainda resta a dúvida se Francisco considera a renúncia ao papado uma alternativa possível. Por outro lado, é certo que isso seria mais fácil de acontecer se não houvesse um outro papa emérito no “quintal de casa”. Sendo assim, o ano de 2019 pode não ser o ano de despedida de Francisco, mas será decisivo: a Igreja Católica entrará em um novo tempo através da reforma da cúria - que se formaliza no primeiro semestre deste ano - e dessa geopolítica pontifícia que interferirá, em cheio, no governo do próximo papa.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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