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01/02/2019 | domtotal.com

O fake, o feio e o inominável

Tudo isso é perdoável; a internet é um acervo com acesso instantâneo para ilustrar o nosso desconforto.

O que não dá para passar batido é a estranha preferência de algumas pessoas pelo grotesco.
O que não dá para passar batido é a estranha preferência de algumas pessoas pelo grotesco. (REUTERS/Adriano Machado)

Por Fernando Fabbrini*

Atento à comunicação humana por hábito, fiquei ligado na diversidade das opiniões, dos enfoques e das manifestações nas redes sociais em torno da tragédia de Brumadinho. As revoltas da alma engrossam a cachoeira das expressões criativas, funcionando como catarse, consolo, compensação.

Dispararam as postagens. De cunhos solidários, críticos e até políticos, os fake e o feios também ocuparam as telas.

Horas depois do acidente surgiu nas redes um vídeo com a frase “como foi o desastre em Minas hoje”. Via-se um rio de lama descendo ao lado de uma floresta, enquanto pessoas gritavam apavoradas. A paisagem até lembrava a de Brumadinho. Fake: tratava-se de um desastre semelhante – rompimento de uma barragem de rejeitos – porém sucedido num país do extremo oriente, anos atrás. Bastaria prestar atenção aos gritos de alarme dos operários na cena, em idioma estrangeiro. Porém, foi replicado à exaustão pelos internautas, ansiosos para divulgarem aquele “furo”.

Outro vídeo: uma montanha artificial desabava bem diante das câmeras. Este, pelo menos, tinha sido gravado no Brasil – mas também há muitos anos. E não era uma barragem de rejeitos – muito menos a de Brumadinho, como afirmavam, veementes, as pessoas que o compartilhavam. Mostrava um desmonte programado de um talude antigo e inútil numa obra em Sinop, Mato Grosso.

Uma foto comovente foi postada à exaustão. Via-se de costas um bombeiro militar recebendo um abraço de um rapaz enlameado e aos prantos. Nas legendas, citações admiradas “veja os heróis que estão salvando pessoas em Brumadinho” e similares. A foto é, realmente, emocionante. Entretanto, foi feita em 2011; mostra um agricultor que caiu em uma cisterna de 17 metros e foi salvo por um bombeiro militar na cidade de Patos de Minas.

Outra foto: bombeiros cobrindo os rostos com os braços, curvados. Dizia o internauta (bem intencionado, claro) que eles estavam chorando, comovidos.

Resgate é um trabalho delicado e trágico, mexe com os nervos. Mas, por uma questão de justiça, na foto citada (que é frame de um vídeo) os militares estavam apenas protegendo-se da ventania causada pelo rotor do helicóptero pousando logo ali. O helicóptero decola e eles voltam os braços à posição normal.

Tudo isso é perdoável; a internet é um acervo com acesso instantâneo para ilustrar o nosso desconforto. O que não dá para passar batido é a estranha preferência de algumas pessoas pelo grotesco. Circularam imagens de cadáveres dentro da lama; descompostos, seminus, partes de corpos. Amigos também relataram – chocados – a visualização disso por aí.

O fake a gente entende; deve-se à emoção do momento e à necessidade de se expressar. Já o feio presente em certas almas vivas, deliciando-se com o escandaloso e o exibicionismo leviano do sofrimento alheio, isso não dá para aceitar.

Além do fake e do feio, teve também o inominável – como a atitude de alguns repórteres diante das lágrimas de familiares das vítimas. Ou aqueles que fizeram gracinhas, politizando a tragédia. (“Brumadinho elegeu Bolsonaro. Agora, comam barro!”) Ou as tentativas de saques das residências humildes, promovida por marginais oportunistas. Ou saber que 102 deputados da Assembleia de MG receberam grana das mineradoras para suas campanhas.

Inominável sim, porque remexi meu amplo vocabulário de cronista e não encontrei um substantivo, um adjetivo ou uma interjeição mais adequada, capaz de expressar o que sinto por essa gente.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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