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01/02/2019 | domtotal.com

Sob o signo do medo

Minas precisa ser ressarcida do que lhe foi arrancado e vem sendo arrancado historicamente.

Arruinados estaremos se permanecermos insistindo nesse modelo, que nos sujeitará a mais mortes e sofrimentos sem fim.
Arruinados estaremos se permanecermos insistindo nesse modelo, que nos sujeitará a mais mortes e sofrimentos sem fim. (Foto: João Castilho)

Por Eleonora Santa Rosa*

Mais de uma centena de mortos e mais do que o dobro de desparecidos na lama tóxica assassina derramada pelo crime ambiental contra Brumadinho.

Chocados, aterrorizados, escandalizados, abismados, assistimos, uma vez mais, a cenas de grande sofrimento, pela espera e agonia da contagem dos corpos do dia, pelas centenas de covas abertas, pela paisagem destroçada, pelos animais dizimados, pela flora arrasada, pelo meio ambiente soterrado pela lama da negligência, pelos laudos fictícios, pelo conluio deliberado do rebaixamento de notas, pela voracidade do capital criminoso na redução de recursos de prevenção, pela irresponsabilidade das bancadas coniventes e sustentadas pelo vil metal do Estado carcomido em suas entranhas, em total estado de  catatonia, em xeque com seu modelo de desenvolvimento emparedado há muito.

Nesse cenário de tristeza, melancolia e impotência, tão sensivelmente captado pela lente de João Castilho na imagem que ilustra o artigo de hoje, o doloroso registro do momento em que os bombeiros, estes, sim, os verdadeiros heróis, buscavam resgatar um ônibus com passageiros soterrados pela lama. Vidas ceifadas, vidas desperdiçadas, por pura irresponsabilidade e cobiça. Dor lancinante, revolta cabal, sentimento inconformado pela perda imposta pelo que não pode ser perdoado, pelo que não poderá ser subtraído, engolido para debaixo da terra, pois está acima do dinheiro e acima ficará, por muitos e muitos anos, lembrando-nos a negligência, a desconsideração, a ausência de fiscalização, a omissão frente ao desafio de desenhar estratégias e alternativas estruturadoras de uma nova economia, de um outro modelo de desenvolvimento.

Arruinados estaremos se permanecermos insistindo nesse modelo, que nos sujeitará a mais mortes e sofrimentos sem fim. Responsabilização já, punição já, mudança já, transformação já, ousadia já, coragem já com o que precisa mudar. Precisamos romper com o veio do passado extrativista que permanece esterilizando e dilapidando nosso território, sem trégua.

Minas precisa ser ressarcida do que lhe foi arrancado e vem sendo arrancado historicamente, nada de obturar cavas, nada de artifícios de superfície, aprendamos com os alemães, com os franceses e tantos outros que foram impelidos a adotar soluções e caminhos não convencionais, não conservadores na reconversão de áreas mineratórias e antigos complexos industriais.

Hoje, de luto, perplexos, horrorizados, choramos nossos mortos, nossos desaparecidos, reféns do medo de novos “acidentes”, medo do qual já falava Drummond, poeta premonitório de Itabira, de Minas, do Brasil, em seu atemporal Congresso Internacional do Medo:

Provisoriamente não cantaremos o amor,

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

não cantaremos o ódio, porque este não existe,

existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,

o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,

o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,

cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.

Depois morreremos de medo

e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

*Eleonora Santa Rosa é jornalista e produtora cultural

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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