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04/02/2019 | domtotal.com

Viagens: do nudismo ao mutismo

É a velha história. Não importa aonde sua viagem o leve mas é sim uma busca para que a gente se ache.

As viagens para que nos achemos se acumulam mesmo que você for um viajante nada atrevido.
As viagens para que nos achemos se acumulam mesmo que você for um viajante nada atrevido. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Em viagem estamos sempre buscando. Essa a ilusão que eu e milhares de viajantes vivemos. Mas na verdade estamos é tentando nos achar. Onde nos encaixamos, quem somos, para onde vamos nesse planeta tão fotografado, devastado, manipulado onde nada parece de verdade ser uma grande novidade.

Pedindo a devida licença para falar em primeira pessoa no meu caso desde as estradas ao redor de Brumadinho onde andei me alheando do perigo que corria até as estradas no interior de Angola, Venezuela ou Colômbia sempre estava tentando é me achar mesmo. Mesmo que de forma inconsciente. Buscando aqui e acolá formar cartões postais fascinantes para mim mesmo. Imagens que eu jamais esqueceria mesmo que da memória fossem apagadas na semana seguinte ao meu  regresso. Essa é a frustração que sempre carrego e que me transforma num viajante insaciável de paisagens e sensações. Vê-las e senti-las mesmo sabendo que na semana posterior ao meu regresso elas corram o risco de empalidecer na minha memória.

Mas para que o dileto viajante - profissional ou iniciante - não desanime da jornada advirto que mesma as sensações e paisagens fugidias deixam resquícios marcados em forma de fotos congeladas na mente. Como tatuagens impressas na memória se me permitem a metáfora de gosto duvidoso.

Numa longa vida de viajante como não me lembrar pois do pôr de sol de Jericoacoara ou de Santa Marta (Colômbia) de trilhas a cavalo no alto da serra da Bocaina ouvindo histórias de assombrações. Como deletar mergulho no raso lindo de Fernando de Noronha, de um navio encalhado de uma praia de Angola, de uma tarde com chuva e uísque entre guerrilheiros das Farc, do visual lindo das planícies da Canaima venezuelana ou de uma praia de nudismo na Paraíba ? Como apagar da mente o filho ainda pequeno correndo nu e deslumbrado no meio das areias dos lençóis maranhenses extasiado com tanto vento, sol e mar ? Como não sentir ainda hoje o cheiro do imenso incensário da Catedral de Santiago de Compostela num domingo de missa ou sofrer um calor de derreter os ossos nas trincheiras abandonadas de Canudos ?

As viagens para que nos achemos se acumulam mesmo que você for um viajante nada atrevido que só curte "Uma viagem ao redor do meu quarto"um clássico de Xavier de Maistre que inspirou o nosso Machado de Assis nas suas "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

É a velha história . Não importa aonde sua viagem o leve mas é sim uma busca para que a gente se ache. Capturando  detalhes que nos fazem reunir nossos próprios cacos. Os coloridos e os opacos, os miúdos e os grandiosos. Tudo aquilo que é material do enorme mosaico que montamos com a vida que vivemos. Mesmo que as paisagens sejam repetidas, óbvias, cansadas como colocar nas palmas das próprias mãos a torre Eiffel ou  a estátua da Liberdade. Em todas as viagens eu sempre preferi ir de trem. Mas os trens hoje em dia são abstrações, devaneios de uma época romântica e muitas vezes inviáveis . Mas essa é outra ferrovia que dia desses eu volto a percorrer. Sempre tentando me achar.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros,dirigiu 12 documentários.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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