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07/02/2019 | domtotal.com

Pelos caminhos da América

Hoje, estou bem na minha cidade, na minha América.

Destino, Cuba. Pagamos, e daí a algumas horas embarcamos.
Destino, Cuba. Pagamos, e daí a algumas horas embarcamos. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Éramos onze na van que nos levou da nossa cidadezinha até Governador Valadares. Continuamos sendo onze no ônibus em que embarcamos rumo a São Paulo. No Aeroporto de Congonhas uma pessoa nos recebeu com passagens nas mãos. Destino, Cuba. Pagamos, e daí a algumas horas embarcamos.

Em Havana, fomos recebidos por outro membro da organização migratória. O sujeito falava uma língua parecida com o portunhol e nos entregou, mediante novo pagamento, os vouchers para o hotel onde ficaríamos três dias. Tinha também as passagens para o México.

Os dias em Cuba não deixaram nada de interessante pra contar. Quase não saímos daquele hotelzinho de segunda classe. Havia, bem perto, um restaurante onde comíamos macarrão ou chicharrone com arroz. Chicharrone é torresmo de barriga. Por sugestão de um amigo, eu tinha levado chicletes e fiz sucesso com os garotos que apareciam pra conversar com aqueles brasileiros de pele meio escura que nem eles. Todo dia eram mais garotos pedindo chicletes, e logo meu estoque acabou.

Embarcamos de Cuba para a Cidade do México. Também lá havia um sujeito cheio de salamaleques nos esperando. Demos a ele o dinheiro da hospedagem num hotel da periferia. A escala seguinte seria Guadalajara. A essa altura já não éramos onze, mas apenas seis, porque cinco desertaram, talvez para tentar a sorte no México mesmo.

De Guadalajara fomos para Mexicali, capital da Baixa Califórnia, cidade que parece implantada dentro de um forno. Calor dos diabos no deserto onde fica o aeroporto. Ali uma senhora dos seus 70 e poucos anos, velha coiote profissional, nos pegou para levar a Tijuana numa caminhonete de luxo. Tijuana, nosso destino semifinal, faz divisa não apenas com os Estados Unidos, mas com a própria cidade norte-americana de San Diego. Muito simpática, a danada da dona sabia de tudo. Falava português sem sotaque, dizia chamar-se Flor e dirigia com uma habilidade que parecia incompatível com sua idade.

Saímos num início de noite em direção a San Diego, mas não foi uma viagem apenas de carro. Em algum ponto da estrada ela parou e nos disse para descer. “Daqui vocês vão a pé, por aquela trilha. Por ela vocês chegarão de novo à estrada, num posto de gasolina, onde eu os estarei esperando. É preciso passar por duas barreiras, e com vocês no carro é claro que não dá, por isso neste trecho vocês vão a pé”, explicou. Entramos no mato e caminhamos umas duas horas na escuridão, iluminando a trilha com uma lanterna que a velhota nos deu.

Suando às bicas, chegamos ao tal posto de gasolina, e aí descobrimos que já havíamos entrado na “América”, que é como são chamados os Estados Unidos. Eles são a América, o resto é resto, mesmo que seja também América. Dona Flor nos deixou em uma espécie de república em San Diego. Desejou-nos boa sorte. Pagamos a ela uma boa quantia, que correspondia ao trabalho dela e às passagens para Denver, no Colorado, e daí para Boston, nosso destino final.

Não vou contar sobre os percalços diversos que enfrentamos por causa da língua, já que não sabíamos uma única palavra de inglês. Mas em Boston foi como se estivéssemos em casa. Havia brasileiros por todo lado, e todos eles disponíveis para nos ajudar a arranjar emprego.

Trabalhei primeiro como pião em demolições. Meus 20 anos me garantiam uma força bruta que permitia trabalhar sem descanso, inclusive aos domingos. 

Da demolição passei à limpeza e serviços gerais em um restaurante, depois fui promovido a lavador de pratos, depois a preparador de legumes, depois a cozinheiro, depois a garçom. O dinheiro era bom. Cheguei a ganhar 1.000 dólares por semana, e fui economizando. A vida é cara na chamada América, mas dava pra sobrar uns mil e poucos dólares por mês. Fui guardando, guardando, e quando vim embora, depois de seis anos, tinha mais de 40 mil dólares na conta de um primo. Eu mandava o dinheiro pelo Banco do Brasil. Também já tinha pago os oito mil dólares que um conterrâneo rico e agiota me emprestara para a viagem.

Hoje, estou bem na minha cidade, na minha América. Construí casa para os meus pais, tenho um restaurante onde ponho em prática meus conhecimentos no ramo, e mais duas casas.

Da minha viagem, só tenho alguma saudade da dona Flor, a quem esqueci de perguntar se tinha dois maridos. E se eram também coiotes que nem ela.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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