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06/02/2019 | domtotal.com

O lagarto no alto da serra

Um farfalhar de folhas secas fez ele se voltar para outra rocha mais adiante. Viu então um lagarto.

Depois de revelar seu segredo, André e o lagarto trocaram um último olhar.
Depois de revelar seu segredo, André e o lagarto trocaram um último olhar. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

No alto da Serra do Curral, à beira do abismo, André titubeou e levantou o olhar, observando a metrópole. Desistiu ou, pode-se dizer, insistiu em viver, abandonou a ideia de se jogar sobre as rochas e cravar o ponto final na frase confusa que era sua vida. Por mais que lhe doesse guardar aquele segredo, algo lhe impediu de cometer o ato derradeiro. Um fio, inominável, tornou o salto impossível.

Diante do precipício, recuou e sua mão tocou a rocha – era um minério bruto e avermelhado – e se sentou sem fôlego, cambaleante. A aspereza da pedra lhe machucava as nádegas. No entanto, não se moveu, a dor física lhe ajudava a acalmar e, aos poucos, foi tomando o lugar daquela outra que sentia no peito.

Um farfalhar de folhas secas fez ele se voltar para outra rocha mais adiante. Viu então um lagarto. O réptil media uns 40 centímetros. Sua pele era verde com manchas escuras que formavam um painel rajado. Estático, encarou André e, depois de alguns instantes, começou a mexer a cabeça e exibir a língua fina e pontuda que saía e voltava da boca.

André começou a falar com o lagarto, contou-lhe o segredo terrível e nunca pronunciado que há pouco tinha lhe conduzido à beira da loucura, da razão, do precipício, da morte, ao limite. Curiosamente, o animal se mantinha imóvel sobre a pedra, apenas um leve movimento no papo mostrava que ele permanecia alerta.

Depois de revelar seu segredo, André e o lagarto trocaram um último olhar. O réptil desapareceu com o mesmo farfalhar com o qual surgira, deixando o jovem só sobre a rocha e a cidade. O choro de André foi como a primeira chuva depois da estiagem, tímida e boa.

Desceu da montanha com passos leves, sentia-se quase feliz.

Acordou cedo sem se lembrar dos sonhos, apenas lhe vinha à mente o olhar daquele lagarto. A imagem lhe transmitia vivacidade e certa alegria, embaralhando os sentimentos. Ao sair de casa, desceu a Rua Rio de Janeiro e tudo lhe parecia diferente.

Observou o funcionário do Açougue Uberaba, na Avenida Augusto de Lima, lavar o piso, admirando a maneira como ele manuseava o rodo. Cumprimentou o Tarcísio, dono da banca de jornal e desejou a moça de vestido azul.

No trajeto ao trabalho, na Cidade Industrial, André divagou com vista para o cinema a que assistia pela janela do ônibus. Pensou em comprar o armário que viu de relance num topa-tudo, achou curiosas as letras das pichações, as formas entre a escrita e a imagem. Vivia o presente plenamente.

Sentiu urgência de tudo, de trabalhar, de se expressar. Queria conhecer gente e viajar. Andar pela cidade sem rumo, pois enxergava uma Belo Horizonte nova. Agora, todas as coisas, objetos e pessoas, árvores e as coxas das moças de peles de todas as cores. André se sentiu vivo de novo e começou a fazer planos de sair da república e alugar um apartamento só para ele.

O dia de trabalho foi normal, mas teve coragem de pedir para o colega lhe ensinar um pouco sobre o programa de computador que desconhecia. Antes de chegar em casa, comprou um livro num sebo do Maletta – O sorriso do lagarto, do João Ubaldo Ribeiro. Gostou da coincidência, se é que elas existem. Sabia que o segredo que tanto lhe atormentava estava guardado com aquele lagarto no alto da serra.  

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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