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07/02/2019 | domtotal.com

O amor nos tempos da cólera

Esse rastro de cólera tem desfeito amizades,desmembrado famílias,promovido agressões verbais e físicas país afora.

A cólera instalou-se no cenário político brasileiro nos últimos anos e agravou-se fortemente nas últimas eleições
A cólera instalou-se no cenário político brasileiro nos últimos anos e agravou-se fortemente nas últimas eleições (Wilson Dias/Agência Brasil)

Por Ricardo Soares*

O texto a seguir não abre com cheiro de amêndoas como o belo romance de Garcia Márquez que  falava do cólera doença causada por bactéria e não da cólera substantivo feminino,sentimento de violenta oposição contra o que molesta ou prejudica; ira.

A cólera instalou-se no cenário político brasileiro nos últimos anos e agravou-se fortemente nas últimas eleições com o Fla-Flu entre os petistas e os anti-petistas o que acabou por eleger o pior presidente de nossa história. E  olha que o páreo é duro!

Esse rastro de cólera tem desfeito amizades,desmembrado famílias,promovido agressões verbais e físicas país afora. Quem não tiver uma triste historiazinha a contar a respeito que levante a mão. Eu mesmo rompi uma amizade recente e esfriei relações com um primo por conta disso.Somos vítimas de nossas próprias cóleras e da dos outros. O sentimento desperta o pior em nós mas não estou aqui pra concorrer a uma vaga de "papai sabe- tudo" ao estilo Karnal-Pondé-Cortella , o trio parada dura das obviedades pseudo-filosóficas. Estou só para lamentar a nossa triste impotência cotidiana em mudar esse estado de coisas. Para tanto e para exemplificar conto dois tristes episódios recentes.

O primeiro deles envolve um sujeito que eu não via há muitos anos e reencontrei nas redes sociais. Outrora simpático e arejado me vendia lindos óculos de ótimo gosto a preços muito bons. Tantos anos passaram e talvez o hábito das vendas de óculos o tenha feito enxergar pior. Tornou-se um empedernido, radical  e xiita seguidor do nefasto político e oportunista Cangaciro Gomes. Cometia toda sorte de malabarismos retóricos e textuais- não, ele não escreve bem - para tentar justificar as muitas idas e vindas do seu guru, notório camaleão de caráter. Como sempre me opus a tudo o que Cangaciro pensa ou fala tivemos alguns embates que nunca fugiram ao bom senso, ou melhor, não demos golpes abaixo da linha da cintura apesar de me estarrecer o fanatismo do sujeito, digno dos minions que seguem Bozonazi. Pois não é que o sujeito passou a agredir tudo e todos que discordavam de Cangaciro com o rótulo reducionista de "ptminions" ?  Mesmo sabendo que os discordantes não eram petistas ? Pois então resolvi reagir e lhe deu um tranco mas sem xingar nem ofender questionando sobretudo seu cego fanatismo em fazer campanha antecipada para 2022 para o seu guru que, afinal, está no limbo e lá ficará. Qual o que ! flagrado em sua suprema ignorância e fanatismo o cangacirista apelou e xingou todo o meu presente, passado e  futuro com a "classe" que sempre caracterizou seu balofo e anacrônico mestre, devidamente sepultado nas últimas eleições depois de ter ajudado Bozo a vencer. Como sobreviver ao amor cangacirista desse sujeito em tempos de cólera ?

O segundo caso é mais trivial e rola aos montes por aí. Imagine um simpático e inofensivo churrasco na casa de uma querida vizinha que comemorava mais um aniversário. Poucos convidados além da família dela e do marido. Somos apresentados a mãe da anfitriã, simpática senhorinha que minutos após nos ter estendido a mão com um "muito prazer" começou a regurgitar cólera quando descobriu estar do lado de vizinhos da filha que apóiam trabalhos de Ongs, são sensíveis às reivindicações  do MST e mais afinados com uma pauta,digamos, mais anarquista. Nem esquerdista eu diria. Isso bastou para que a senhora se transformasse de Dr.Jekyll em Mr.Hyde para fazer aqui alusão aos personagens de "O médico e o monstro". A senhorinha passou a nos metralhar com toda sorte de preconceitos e fake news que demonizavam PT, sem terra, sem teto, índios, negros, cadeirantes,maconheiros, sacis pererês, petistas, metalúrgicos, bóias frias. Restou saber de quem a senhora gostava mas não deu nem tempo de averiguar. Incomodada com a presença de quem não pensava como ela se retirou do lado da churrasqueira garantindo que George Soros , um dos homens mais ricos do mundo, é comunista.

Diante desse quadro (fanáticos de todos os matizes ideológicos)  e gente que acredita em todo tipo de teoria da conspiração fico a me perguntar quanto tempo ainda sobreviverá o amor nesses tempos da cólera,substantivo feminino. A essa altura só posso recorrer e me transportar  ao imaginário do Garcia Marquéz para tentar respirar um clima mais ameno daqueles tempos do cólera.

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista.Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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