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11/02/2019 | domtotal.com

Quem é Roger Stone, o patife elegante

Trafulhas que se orgulham da sua amoralidade, só há um, e dá pelo nome de Roger Stone.

Stone apresenta a sua marca em público com frases que não se esquecem facilmente.
Stone apresenta a sua marca em público com frases que não se esquecem facilmente. (AFP)

Por José Couto Nogueira*

Patifes, há muitos. Aldrabões que se fazem passar por boas pessoas, é o que não falta. Mas trafulhas que se orgulham da sua amoralidade, só há um, e dá pelo nome de Roger Stone. Veste-se como um gentleman e fala como um mafioso. Tem 66 anos, e desde os 18 que se envolveu na política. Embora não faça segredo da sua malvadeza, antes pelo contrário, até sexta-feira passada nunca tinha sido incriminado por nada – o que não surpreende, pois sempre disse que vale tudo, desde que esteja dentro da lei. E agora, que é acusado de vários crimes, alega-se inocente e apresenta a mesma exuberância no trato e elegância no vestir que o tornaram famoso.

Ken White, na revista “The Atlantic”, escreve que “Stone é perfeito para a época do “clickbait”. Apresenta-se com um guarda-roupa espampanante, tem o rosto de Nixon tatuado nas costas e um grande talento para fazer as pessoas rir-se dele. Criou uma marca: auto-confiança truculenta e injustificada, conversa brutal e convoluta, e uma tendência para insultar aqueles que vê como inimigos. São coisas que chamam a atenção. Ninguém muda de canal quando Stone aparece no ecrã a justificar-se.”

Stone apresenta a sua marca em público com frases que não se esquecem facilmente. “É melhor ter má fama do que não ter fama nenhuma. Tem de se ser ultrajante para ser famoso”, por exemplo.

“Gosto do ódio das pessoas porque se não fosse eficiente não me odiariam. O ódio é mais motivador do que o amor”, outro aforisma atirado à cara do espectador com um sorriso felino. Quanto ao seu modo de agir: “Faça o que tiver de fazer para conseguir o que quer; seguir as regras é para os parvos.”

Politicamente, Roger Stone é republicano desde a primeira campanha presidencial de Richard Nixon (depois duma breve passagem pela de Robert Kennedy) e continua um aberto defensor – talvez do único – do malfadado presidente, que abdicou para não ser impedido, em 1974, no seguimento do processo de Watergate. Instado recentemente porque continua a defender Nixon, respondeu: “É para me lembrar de que um homem não está acabado quando é derrotado; só está acabado quando desiste.” Trabalhou também nas campanhas de Reagan e George H. W. Bush

Esta posição coloca-o à direita no espectro político norte-americano, mas Stone está acima (melhor seria dizer, ao lado) da dialéctica esquerda-direita. Para ele “democracia é influenciar o maior número de pessoas”. Influenciar, induzir, enganar, para chegar ao poder, pela satisfação de ser o mais esperto.

Muitos políticos pensarão o mesmo, mas o bom senso leva-os a escondê-lo. Não Roger Stone, que nunca se candidatou a um cargo político, pelo escrutínio e responsabilidade que acarreta. É um operacional, que prefere trabalhar nas manobras oblíquas das candidaturas que acha que influenciar mais o eleitor. Foi o caso de Trump, que muitos consideram uma invenção dele. Em 1999, ao justificar porque ia orientar a campanha do atual Presidente, disse que era “um jockey à procura dum cavalo”. Com ele estava, na mesma altura, Paul Manaford, sócio de sempre na empresa de lóbi maldita por ter as contas de Mobutu e Ferdinand Marcos. Noutros casos, especialmente envolvendo campanhas pelo governo pró-russo da Ucrânia e o grupo de milionários de Putin, Stone não aparece, mas Manaford meteu os pés pelas mãos, caiu nas malhas do Procurador Especial Robert Mueller, e tem muitos anos de prisão pela frente. Manaford também gostava de luxo – o seu casaco de pele de avestruz de 15 mil dólares correu as redes sociais – mas tem uma esperteza saloia e uma aparência desconjuntada que não se compara à fina malvadeza e porte impecável de Stone. Além disso Manaford cometeu crimes, enquanto Stone fez manobras, atividades que podem repugnar a um homem honesto, mas não estão enquadradas em qualquer lei. E fê-lo com um à vontade impressionante, ao ponto de colaborar entusiasticamente num filme de hora e meia, “Get Me Roger Stone”, apresentado no Tribeca Film Festival e que pode ser visto no Netflix. 


No documentário, Stone explica pormenorizadamente como percebeu que Donald Trump era o tal cavalo em que poderia montar e como o “educou” para a imagem que lhe daria a vitória. No princípio do filme aparece sorridente, como sempre impecavelmente vestido, e afirma, a olhar de frente para a câmera: “O meu nome é Roger Stone e sou um agente provocador.”

Provocador, e como. Ao apresentar-se numa das famosas conferências da Oxford Union, na Grã-Bretanha  explica muito bem porque defendeu sempre Richard Nixon e o que pensa que é a política: um jogo de espelhos cujo mérito está em vencer, não em ter  melhores ideias.


Na sexta-feira passada, surpreendentemente (mas não inesperadamente) o FBI prendeu Stone na sua casa da Flórida, com um mandato de Robert Mueller. Quanto à prisão, gravada por dezenas de jornalistas e com a presença de apoiantes e detratores – um verdadeiro espetáculo – Stone foi rápido a dizer, com um tom de desprezo, mas uma ponta de orgulho, que é um homem de mais de sessenta anos que nunca cometeu um crime, mas cuja casa foi invadida e se viu algemado com mais aparato do que um barão da droga.

Quanto às acusações, “são uma mijadinha numa pedra. Não há nenhum crime violento nem nenhuma lei violada.”

Sete acusações, na verdade, que incluem mentir ao Congresso, obstrução da Justiça, influência de testemunhas e destruição de provas – tudo delinquências pesadas na jurisdição norte-americana, em que o perjúrio é crime.

Estão relacionadas com os famosos emails da Comissão Eleitoral de Hillary Clinton, publicados pelo site WikiLeaks em Outubro de 2016. A história dos emails teve uma influência significativa na derrota de Clinton e é sabido que foram roubados pelos russos e depois entregues ao WikiLeaks na altura certa. Mueller tem provas de que Stone foi o intermediário da operação, que pode ser vista como traição, uma vez que indicia influência de um governo estrangeiro numa eleição nacional.

Stone foi levado a um juiz na terça feira e declarou-se inocente. Não será fácil a Mueller provar um circuito tão complexo, mas há provas, e algumas são bastante concretas, como emails e telefonemas. Adivinha-se uma longa batalha legal, que permitirá a Stone uma longa exposição nos média, como ele gosta.

Entretanto ficou-se a saber que o seu associado na empresa de lóbi, Jerome Corsi, e que esteve com Assange em Londres, terá aceite colaborar com o Procurador. Resposta de Stone: “Hei-de mijar na tua campa!”

Também se tornou público que o grupo de punks de extrema direita, Proud Boys, está ao lado de Stone. Parece que ele entrou para o grupo no ano passado, uma combinação estranha, mas que, a avaliar pelas fotos dele no meio dos desgrenhados racistas, foi feita como provocação engraçada.

Roger Stone é uma figura única, só possível no ambiente tóxico da política norte-americana. Mas também se pode dizer que ele muito contribuiu (tal como Newt Gringrich) para a disseminação dessa toxicidade.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

EMGE

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