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07/02/2019 | domtotal.com

O casal de idosos que não sabe como contar para a bisneta que o pai sumiu na lama da Vale

"Está lá soterrado. Não achou ele até agora. Ele sumiu na sexta-feira. Na quinta, a gente estava aqui conversando", lembra a idosa.

Vicentina Gomes de Moura e José Maria das Candeias moram há 68 anos em Brumadinho
Vicentina Gomes de Moura e José Maria das Candeias moram há 68 anos em Brumadinho (Dom Total)

Por Rômulo Ávila
Enviado especial a Brumadinho (MG) 

Sentados em um banco de madeira na rua Um, na comunidade de Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), onde moram, Vicentina Gomes de Moura, 83 anos, e José Maria das Candeias, 72 anos, conversam e tentam entender o crime socioambiental que provocou a morte de dezenas de pessoas e acabou com a tranquilidade de Feijão, como tratam a comunidade. Os dois estão casados desde 1952. São 68 anos morando em Brumadinho, onde criaram sete filhos. O olhar cabisbaixo e triste reflete, um pouco, o tamanho da dor.

“Aqui era muito bom para morar. Criei meus filhos tudo aqui, nunca deu problema, graças a Deus. O primeiro problema que está dando é esse da Vale”, lamenta a aposentada. Além de testemunharem parte da comunidade onde vive há décadas ser engolida pela lama da Vale, Vicentina e José Maria sentem no coração a dor de ter perdido um neto.

“Está lá soterrado. Não achou ele até agora. Ele sumiu na sexta-feira. Na quinta a gente estava aqui conversando. Ele chegava do serviço e me gritava”, lembra a idosa, lamentando ainda o fato de seu neto ter deixado uma filha de seis anos. “Ela não sabe ainda. Ela chamava ele de papito”, acrescenta José Maria. “A gente não sabe como será quando ela ficar sabendo”, ressalta Vicentina.

O neto do casal de idosos é Wesley Eduardo de Assis, 37 anos. Ele trabalhava como operador de máquinas e estava na barragem no momento do rompimento.

“Não esperava isso, de a Vale deixar acontecer. Ela tinha que ter visto antes. Tinha que ter corrigido a barragem antes”, lamenta. "É difícil demais... os meninos, tudo trabalhador”, diz.

A dor e o sofrimento de dona Vicentina e José Maria são facilmente identificados em outros moradores da comunidade. É praticamente impossível não encontrar uma pessoa que tenha perdido um parente ou amigo no crime socioambiental provocado pela mineradora Vale, no dia 25 de janeiro. O número de desaparecidos, como Wesley, aumenta a aflição. 

Na rua onde Vicentina e José Maria moram uma passagem bíblica em uma placa de um comércio representa a única esperança de muitos na comunidade: Deus. “Tu és um juiz justo e, sentado no seu trono, fizeste justiça, julgando ao favor ( Salmo 9.4)".

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