Religião

08/02/2019 | domtotal.com

O Vaticano e a crise na Venezuela

Após os últimos pronunciamentos de Papa Francisco sobre a Venezuela, como a Santa Sé poderá contribuir com o fim da crise?

Venezuelanos exibem bandeira do país durante oração mariana do Angelus, no Vaticano. Bom trabalho a todos!
Venezuelanos exibem bandeira do país durante oração mariana do Angelus, no Vaticano. Bom trabalho a todos! (ANSA)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

O desejo de mediar para pôr um fim à crise na Venezuela foi expresso pelo próprio Papa Francisco no voo de regresso a Roma, após a sua histórica viagem aos Emirados Árabes. De acordo com ele, basta apenas “que ambas as partes solicitem a mediação”, referindo-se a Nicolás Maduro e a seu opositor, Juan Guaidò, reconhecido como novo líder do país por vários países europeus, pelos Estados Unidos e por grande parte dos estados latino-americanos.

O pontífice confirmou que já recebeu uma carta de Maduro, cujo conteúdo ainda não foi divulgado. Caso se trate de um pedido de intervenção, faltaria apenas que Guaidò também se manifestasse por vias diplomáticas, de modo que a Santa Sé possa, oficialmente, entrar em ação. Tudo isso porque a diplomacia vaticana tem como princípio fundamental o de atuar super partes (sobre as partes), apresentando-se como uma autoridade moral capaz de promover esse tipo de diálogo.

Muitos não sabem, mas é o ex-presidente do extinto pontifício conselho para as comunicações - hoje dicastério/secretaria para a comunicação -, Dom Claudio Maria Celli, um dos que encabeçam, por muitos anos, as negociações para pôr um fim a esse impasse. Em 2016, o arcebispo já havia dito que, se tal tentativa fracassasse, “haveria muito derramamento de sangue e o povo venezuelano é quem iria arcar com as consequências”, o que reforça a importância do papel da Santa Sé como agente conciliador.

Há cerca de dois anos, uma equipe composta por experientes agentes diplomáticos vaticanos atua estrategicamente na contenção dessa crise. Porém, apesar da habilidade dos facilitadores, “o esforço não obteve êxito por causa da falta de compromisso do governo em levar adiante as tratativas”, segundo o cardeal venezuelano Baltazar Porras, em entrevista ao jornal argentino Clarín, divulgada esta semana.

A Santa Sé, que participou das mesas de diálogo entre a Unasul (União das Nações Latino-Americanas) e uma comissão do governo Maduro, foi testemunha do acordo que previa desde a implementação de medidas para acabar com a falta de abastecimento de alimentos e medicamentos ao restabelecimento do papel da Assembleia Constituinte conforme estabelecido Constituição. No entanto, tais solicitações não foram atendidas, o que provocou uma “cobrança” por parte do secretário de estado do Vaticano, Pietro Parolin.

O Papa Francisco pretende assumir as rédeas da situação por medo de que se inicie uma guerra civil: essa é a verdade. A prioridade da Santa Sé é tutelar a paz e a dignidade humana, como reiterou o porta-voz do Vaticano nesta semana. Por mais que cobrem posicionamentos diretos da Igreja Católica, a diplomacia vaticana - que atua super partes, como foi dito acima -, não pode se colocar contra ou a favor de determinada conjuntura política, uma vez que não cabe a esta julgar, mas promover a paz e a estabilidade através, sobretudo, do diálogo. Sendo assim, não adianta cobrar do Vaticano algo que vá contra sua própria linha de ação. A expectativa é que o papa, que não obteve poucos sucessos diplomáticos ao longo do seu pontificado, consiga, mais uma vez, suscitar a esperança de dias melhores para o povo venezuelano, o mais prejudicado em toda essa triste situação.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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