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08/02/2019 | domtotal.com

Bate-papo com amigo salva morador de morrer na Tragédia de Brumadinho

Habitante do Córrego do Feijão levava currículo para empresa terceirizada da Vale no momento do rompimento da barragem.

Além do dano ambiental e das mortes, o rompimento da barragem da Vale provoca grandes transtornos para os moradores da região rural de Brumadinho.
Além do dano ambiental e das mortes, o rompimento da barragem da Vale provoca grandes transtornos para os moradores da região rural de Brumadinho. (Ricardo Stuckert/Divulgação)

Por Thiago Ventura
Enviado especial a Brumadinho (MG)

O rompimento da barragem da Vale, no dia 25 de janeiro, afetou a vida dos moradores de Brumadinho, na Grande Belo Horizonte. No distrito do Córrego do Feijão, praticamente todos têm algum conhecido ou parente entre as vítimas do desastre. Alguns casos, contudo, surpreendem pelo acaso (ou providência divina) que salvou alguém do pior. Foi o que aconteceu com Alcir Carlos, de 40 anos.

Na fatídica sexta-feira, Alcir terminou um pouco mais cedo um serviço que fez numa fazenda na localidade, almoçou rapidamente em casa e pegou um currículo. O objetivo era entregá-lo na Mina do Córrego do Feijão, em busca de oportunidade numa empresa terceirizada. No trajeto, encontrou um amigo e parou para conversar. Foi a sua salvação.

“Vim almoçar em casa e peguei um currículo para levar. Encontrei um colega no meio do caminho e parei para conversar. Nisso vi a poeira levantando. Até brinquei com ele: ‘uai, a Vale está estourando minério perto do restaurante?’. Se tivesse ido, tinha sido levado pelo barro”, conta.

Alcir não tem dúvidas que teria sido mais uma dos mortos ou desaparecidos da barragem. Apesar da sorte de ter a vida poupada, ele perdeu a segunda esposa, mãe de dois filhos que tem. Com os olhos marejados, lamentou a perda de Cristina de Paula Araújo. O corpo foi velado no distrito, no último sábado, dia 2. O morador ainda ressente a perda de dois primos, Paulinho Bueno dos Santos e Juninho dos Santos, que estão desaparecidos.

Encontro casual com um amigo salvou a vida de Alcir. Encontro casual com um amigo salvou a vida de Alcir. Alcir conta que já trabalhou dentro da mina, atuando por duas terceirizadas diferentes. Na época, tinha medo da barragem. Mas, por falta de emprego, resolveu voltar. A revolta com a tragédia quase o tirou da razão. No domingo, dia 27, uma sirene tocou por volta das 5h acordou a cidade, deixando todos apreensivos. Havia o risco de a barragem de água da mina romper, o que foi descartado horas depois.

“Os diretores da Vale são iguais políticos. A barragem de água também vai descer, só não se sabe quando. Reuniram com a comunidade, mostraram as sirenes, mas quando precisou não funcionou. Isso é um absurdo”, afirma.

Moradores ilhados

Além do dano ambiental e das mortes, o rompimento da barragem da Vale provoca grandes transtornos para os moradores da região rural de Brumadinho. Habitantes do Cantagalo, povoado que pertence ao distrito de Córrego do Feijão, ficaram ilhados devido a lama. A estrada foi interditada e devido às chuvas desta semana, ainda não há previsão para que seja liberada.

Sem ligação com a sede do município, moradores do Córrego do Feijão precisam viajar até Piedade do Paraopeba ou mesmo até Belo Horizonte para chegar ao Centro de Brumadinho. A Vale providenciou vans para o transporte dos moradores, mas mesmo assim o transtorno persiste.

Maria Aparecida de Lima Oliveira precisou andar 40 minutos a pé e na lama para chegar ao Córrego do Feijão. De lá, pegaria uma van até o centro de Brumadinho. O abastecimento de água foi interrompido e a família passou a depender do envio de água da Vale. Mais um sofrimento para a idosa, que também perdeu uma sobrinha, que era funcionária da pousada Nova Estância, varrida do mapa pela lama. “Tá muito difícil, mas fazer o quê? Perdi minha sobrinha e muitos amigos e conhecidos do Córrego do Feijão. O jeito é pegar com Deus”, diz.

A alteração no cotidiano do pequeno distrito também incomoda os moradores mais antigos. O motorista aposentado Hélio Gonçalves Maia, de 74 anos, teve uma sobrinha entre os mortos da tragédia. “Isso não foi da natureza. Isso foi um assassinato. Eles sabiam que ia acontecer para mim é um crime, tanto para o meio ambiente, como para as pessoa que morreram”,  diz.


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