Esporte Futebol Mineiro

11/02/2019 | domtotal.com

Grande clube, pobres versos

O Cruzeiro tem o menor e o mais pobre de todos os hinos de clubes brasileiros.

Velho cruzeirense que sou, pergunto: por que não criou ele algo equivalente ao seu talento quando lhe delegaram a sagrada missão de compor o hino do Cruzeiro?
Velho cruzeirense que sou, pergunto: por que não criou ele algo equivalente ao seu talento quando lhe delegaram a sagrada missão de compor o hino do Cruzeiro? (Vinnicius Silva/Cruzeiro)

Por Afonso Barroso*

O compositor mineiro Jadir Ambrósio, autor de canções que fizeram sucesso lá pelos idos de 1950, uma delas gravada até por Luiz Gonzaga, tem história rica como letrista e músico talentoso. Velho cruzeirense que sou, pergunto: por que não criou ele algo equivalente ao seu talento quando lhe delegaram a sagrada missão de compor o hino do Cruzeiro? Em vez disso, parece que sob inspiração de alguma entidade preta e branca, ele perpetrou nove versinhos pobrezinhos, mirradinhos, incompatíveis com a grandeza do clube. A melodia, embora nada empolgante, não chega a ser desprezível, até porque é adornada por um belo arranjo. Mas a letra é tão lastimável como uma derrota diante do Atlético.

Começo minha lamentação pelo fim, com estes dois versos absurdos que fecham o hino com chave de lata: “Cruzeiro, Cruzeiro querido/Tão combatido, jamais vencido”.  Tão combatido por quem? E por quê? E como jamais vencido? Time jamais vencido jamais existiu nem existirá. Essa verdade insofismável mata qualquer licença poética.

Analisai agora verso por verso e vede como é triste esse hino. Assim como termina mal, começa também mal ao dizer que“Existe um grande clube na cidade/Que mora dentro do meu coração”. Trata-se de uma exaltação às avessas. Cidade? Que cidade? São José do Jacuri? Beagá? Mutum? Itapecerica do Tamanduá? Serra da Saudade? Estes dois versinhos reduzem às imediações do nada o universo de um clube cuja grandeza ultrapassa em muito os limites de qualquer cidade, qualquer metrópole.

Mas vamos em frente: “Eu ando cheio de vaidade/Pois na realidade/ É um grande campeão”. Estes são versos frágeis, mas aceitáveis, só que se anulam nos dois seguintes: ”Nos gramados de Minas Gerais/Temos páginas heroicas, imortais”. Como apenas nos gramados de Minas Gerais, se somos três vezes campeões brasileiros, hexa da Copa do Brasil, e se já conquistamos duas Libertadores, uma delas lá na beira do Pacífico?

Somando-se esses versos ao já comentado “tão combatido, jamais vencido”, chega-se à conclusão de que o Cruzeiro tem, desafortunadamente, o menor e o mais pobre de todos os hinos de clubes brasileiros. Até o do América, também muito ruim, é melhor.

Mas tem solução. Abra-se um concurso entre compositores mineiros, ofereça-se um bom prêmio, escolha-se uma comissão julgadora competente, elabore-se um eficiente plano de propaganda e marketing para divulgar a promoção - e, na sequência, a composição vencedora, para que seja tocada insistentemente nas rádios, nos estádios, na internet.

Teremos, certamente, um hino à altura do clube. E poderemos então arquivar para todo o sempre esse que não merece ser cantado, de tão vencido e jamais combatido. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas