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11/02/2019 | domtotal.com

Aracataca - Macondo é aqui

Se Aracataca vale a visita? Evidente que sim se você descontar o calor abrasador, a poeira e a pouca beleza da cidade.

Muitos lugares aqui lembram a Macondo de García Márquez.
Muitos lugares aqui lembram a Macondo de García Márquez. (Ricardo Soares)

Por Ricardo Soares*

O jornalista Marcelo Mendez,estampa de beduíno do deserto,amplo divulgador do futebol de várzea, vive dizendo que o "pico" onde mora lá no ABC paulista lembra Macondo, a cidade inventada por Gabriel García Márquez.Eu que também cresci na periferia do ABC paulista sou obrigado a concordar com ele mas o nosso Brasil,já não tão varonil,é recheado de bom e mau realismo fantástico em todos os cantos do mapa.Muitos lugares aqui lembram a Macondo de García Márquez.

Sucede que a Macondo imaginária existe de verdade e se chama Aracataca, uma cidade ainda hoje pequena, remota e quente não muito distante de Santa Marta e também nem tão longe da fronteira agora vigiada com a Venezuela. Foi ali que o criador de "Cem Anos de Solidão" nasceu e viveu a maior parte de sua infância na casa do avô, aquele mesmo velho lendário que é o protagonista de "Ninguém escreve ao coronel".

No último dia 18 de janeiro fui até Aracataca e não imaginava mesmo encontrar borboletas amarelas voando ou uma menina que arrastava um saco de ossos e muito menos Aureliano Buendia deslumbrado diante da primeira vez que viu o gelo, passagens marcantes do "Cem Anos de Solidão". Não vi nada disso mas sim a Casa Museu García Márquez, com objetos da família e um "comerciozinho" de bibelôs sobre o escritor ali em volta.Um dos vendedores é Rodolfo Rodriguez, homônimo daquele histórico goleiro do Santos FC, um rapaz simpático, falante, grande conhecedor da vida e obra do escritor que colocou  Aracataca no mapa. Rodolfo,entre outros atributos, mantém e incentiva um museu de leitura na cidade e poderia, sem o menor esforço, ser um personagem do autor de "O amor nos tempos do Cólera".

Se Aracataca vale a visita ? evidente que sim se você descontar o calor abrasador, a poeira e a pouca beleza da cidade. Vai ver ali , além da casa do filho ilustre do lugar, a bem conservada igreja onde foi batizado,a ainda intacta agência dos correios e telégrafos onde o pai do escritor trabalhou e é mencionada nos livros. Isso sem falar no simpático  "El patio mágico de Gabo y Leo Matiz" um casarão com amplo quintal hoje transformado em honesto restaurante que abriga um museu informal sobre García Márquez e Leo Matiz que foi um fotógrafo, caricaturista, editor de jornais, pintor e dono de galeria que também correu mundo e nasceu em Aracataca. Muito amigo de Gabo era nesse "pátio", que foi de Leo, que os dois se encontravam e hoje está sob os cuidados de Tilda, alegre senhora que conheceu e conviveu com os dois e desfia dezenas de histórias sobre eles com uma desenvoltura risonha às vezes repreendida pelo filho que imagina que ela possa estar sendo inconveniente comigo e um adorável casal argentino oriundo de La Plata e ferrenhos críticos de Macri.

Ao sair da cidade olho para uma placa que anuncia o rio Aracataca antes de cruzar uma bonita ponte de ferro sob a qual alguns trabalhadores executam reparos no instante em que passo e duas horas depois de sermos achacados por um guarda corrupto que encontrou irregularidades inexistentes no táxi onde eu estava. Lá como cá a polícia nas estradas é tremendamente corrupta e se vende por dois refrigerantes. Mas daí é outro capítulo de um realismo nada fantástico que assemelha o Brasil com a Colômbia e que deixo pra outro dia .

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista.Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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