Religião

12/02/2019 | domtotal.com

Fugir da dor?

Não há nada na vida que dure para sempre e estamos sempre em busca da superação do que nos aflige em vistas de uma melhor qualidade de vida.

Não há dúvidas de que o que estamos vivendo é um grande sofrimento coletivo: é “sofrimento mesmo”.
Não há dúvidas de que o que estamos vivendo é um grande sofrimento coletivo: é “sofrimento mesmo”. (Raj Eiamworakul/ Unsplash)

Por Tânia da Silva Mayer*

Uma amiga me contou uma história de uma senhora que lutava por moradia há anos, como é o caso de muitas pessoas em nosso país hoje. Segundo ela, depois de ter enfrentado muitas pelejas, essa senhora disse certa vez o seguinte: “Hoje a gente chama de luta, naquele tempo era sofrimento mesmo”. Chama-nos a atenção a capacidade que temos para dar outros sentidos às experiências que vivemos, o que é dor no presente pode ser transformado em alegria no futuro. Do mesmo modo, o sofrimento e o pranto poderão ser lidos como luta e festa. Essa capacidade interpretativa que temos pode ser tomada num sentido positivista que nos fará pensar enganosamente que tudo sempre tende a terminar bem. Por outro lado, pode ser tomada num sentido sapiencial: não há nada na vida que dure para sempre, nem as alegrias nem as tristezas, e estamos sempre em busca da superação do que nos aflige em vistas de uma melhor qualidade de vida.

A capacidade de atribuir outros sentidos às experiências vividas não deve nos enganar quanto às causas que motivaram o difícil momento presente. Ter consciência de que outras leituras serão feitas não apaga os sentimentos mais verdadeiros provocados pela dura realidade. O que é dor, dói, e não há como falsificar isso. Por sua parte, à medida que vai ocorrendo algum apaziguamento, torna-se oportuna uma reflexão que identifique as causas que provocaram o tempo de dificuldades. Isso também nos permitirá atribuir outros sentidos no futuro para um acontecimento do agora. Por isso, é imprescindível também sermos verdadeiros com o que estamos sentindo, fugindo de relativizações, sobretudo quando o que sentimos é fonte de grande tristeza. Ser fiel ao que brota do coração também nos permite avançar quando o tempo for propício. Nesse sentido é que se encoraja a vivência do luto, só depois de vivido é que se poderá ressignificar a própria vida.

Esse ano se iniciou de um jeito muito estranho, a começar pela tomada de posse de um governo cujos representantes vociferam maldades e preconceitos contra grupos e minorias. Não bastasse essa infelicidade, o crime da Vele em Brumadinho colocou o país num luto profundo, nos deixou a todos abaixo da lama, juntamente com os corpos sepultados pela ganância dos grandes empresários que não vislumbram, nem de longe, as grades da prisão como punição para os seus crimes. A morte dos jovens jogadores da base do Flamengo na semana passada é outra página infeliz do terror. Com esses garotos, assim como com os funcionários da Vale e os moradores de Brumadinho, ao que tudo indica, foi praticada a irresponsabilidade dos grandes à custa do sepultamento de histórias, sonhos, projetos de vida. E todas essas tragédias estão sendo vividas e acompanhadas com menos de quarenta e cinco dias de um ano que está só começando.

Não há dúvidas de que o que estamos vivendo é um grande sofrimento coletivo: é “sofrimento mesmo”. Mesmo as mais tímidas mobilizações contra essa maré de azar e maldade não conseguem ainda se constituir como luta, tamanho o sentimento de fragilidade e impotência diante das catástrofes que produzimos contra nós mesmos. A esperança encontre lugar em nossos corações para que possamos dar outro significado à dor do presente, sem deixar de identificar quem são os responsáveis pelo sistema de morte que está reinando entre nós e, quem sabe, começar a projetar um tempo futuro melhor que o agora.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas