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13/02/2019 | domtotal.com

Os pássaros ainda cantam

O silêncio me constrangeu, só que ele estava à vontade ali, ouvindo os pássaros que piavam naquele prenúncio da aurora.

Ainda ressabiado, omiti que era jornalista e falamos de pássaros e pios.
Ainda ressabiado, omiti que era jornalista e falamos de pássaros e pios. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

“Por favor, não jogue essa batata frita na minha cara”, eu disse, diante do olhar esbugalhado de Mark E. Smith. Estávamos no balcão do New Foods, na Praça ABC, fazia calor e o paletó dele era cinza como Manchester no fim do outono. O ambiente me era absolutamente familiar, mas as pupilas de Mark E. Smith me pareciam ameaçadoras.

“Fala, garoto”, Marcão, o chapista xará do meu interlocutor, saudou-me enquanto virava dois hambúrgueres atrás do vidro que evitava os clientes serem impregnados pelo cheiro de bacon por horas, dias talvez. Pedi uma cerveja e, como Mark E. Smith não conseguia lidar com o cardápio, sugeri o foods bacon e me sentei do lado de fora, numa cadeira vermelha, ou branca, não sei bem.

Sem pedir licença, ele puxou uma cadeira, azul ou branca, acho, e estendeu o latão de Brahma para brindar. “Cheers, mate”, eu disse. Não pronunciou palavra, mas sorriu, ato que me tranquilizou em relação ao risco das batatas fritas na minha cara.

Ainda ressabiado, omiti que era jornalista e falamos de pássaros e pios. Lembrei-me do corvo do Poe, mas não sabia dizer a palavra agouro em inglês. Gostaria de saber se existe um equivalente ao termo, que pode ser bom, mas, em geral, não é.

O silêncio me constrangeu, só que ele estava à vontade ali, ouvindo os pássaros que piavam naquele prenúncio da aurora. “I can’t really get what the Chinese think, you know, their notion of time is...”, soltou, sem concluir. Tive que pedir para ele repetir umas três vezes por causa do sotaque. Respondi que os chineses têm uma lógica particular e de longo prazo, em termos de séculos e não décadas, como nós ocidentais. Mark deu três goles no latão e não comentou.

Mário, gentil como sempre, recolhendo as cadeiras e mesas, anunciou que estava encerrando os serviços do estabelecimento. Mark E. Smith entendeu e, olhando as árvores e o céu, perguntou-me onde poderia beber uma saideira. “At the gas station”, falei, apontando para o postinho d’A Obra. “Cheers, mate”, recebi de volta.

Mark E. Smith saiu andando decidido e cambaleante. Quase foi atropelado. Cheguei a me levantar da cadeira, com receio. Ele gesticulou muito – acho que xingava o motorista e também concebia uma música nova naquele instante, naqueles gestos de maestro punk.

Quando me levantava para ir embora, vi Mark E. Smith se aproximando e apontando para as árvores. “The birds are singing”, falou. “Pere Ubu”, respondi. A expressão de Mark E. Smith foi a da alegria de um menino que descobre uma maneira inédita de pirraçar o irmão.

Olhou-me seriamente e gritou: “We are The Fall”, antes de se virar e sair, novamente trôpego, descendo a Getúlio Vargas. Fiquei um pouco preocupado com a integridade física dele. Porém, pensei, um vaso desse naipe não se quebra fácil. Dormi com certa culpa de não lhe ter feito companhia.

Semanas depois, soube que ele tinha ido parar na casa do César Glicevi lá pelas 9h da manhã. Ouvi dizer que compuseram uma música. Preciso ouvir.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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