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14/02/2019 | domtotal.com

Um grego me levou para o jornal

De crítico de cinema passei a repórter e, como era bom de texto e títulos, virei copidesque e editor

Também me tornei redator de publicidade.
Também me tornei redator de publicidade. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Foi durante um curso de cinema do CEC, Centro de Estudos Cinematográficos, que me tornei jornalista e, no andar da carruagem da vida e das letras, redator de publicidade.

Aconteceu assim: como o crítico Antônio Lima, do Diário da Tarde, havia se mudado para São Paulo, o editor do caderno de cultura do jornal, Afonso de Sousa, abriu concurso pra preencher a vaga e usou para isso o CEC, que na época tinha atuação de destaque no meio cultural de Belo Horizonte. Entre outras atividades, realizava cursos de cinema.

Uma noite, o grande Ronaldo Brandão, um dos professores do curso, iniciou a aula dando aos alunos a notícia do concurso e informando que todos iriam participar. Pediu que cada um de nós (éramos uns 30, por aí) fizesse uma crítica de qualquer dos filmes em cartaz na cidade e entregasse no dia tal.

O filme que escolhi foi Zorba, o Grego, dirigido pelo cipriota Michael Cacoyannis. Saber escrever, eu sabia, mas entendia muito pouco de cinema. Eu apenas gostava, não mais do que isto. Resolvera frequentar o curso para aprender mais sobre a então chamada sétima arte

Vi o filme duas vezes no Cine Metrópole (ou foi no Acaiaca?), sentei e escrevi.

Escrevi, principalmente, sobre o desempenho magistral do ator Anthony Quinn, que me impressionou muito no papel de Zorba, personagem central da história. E falei sobre a beleza da amizade que uniu esse rude camponês da ilha de Creta e o escritor britânico (Alan Bates) que foi para lá a fim de reativar uma mina deixada de herança pelo pai.

Falei sobre a fotografia do filme, que dava grande ênfase às paisagens da ilha - deslumbrantes, mesmo em preto e branco - e sobre o belíssimo final, que sela a amizade entre os dois personagens. Como o negócio da mina fracassou, Zorba convence o amigo de que devem comemorar e não lamentar. E comemoram dançando ao som do tema musical que se tornou sucesso no mundo inteiro.

Meu texto foi um dos quatro escolhidos para a etapa seguinte, em que cada um dos selecionados deveria escrever críticas durante uma semana, com publicação no Diário da Tarde. Acabei vencendo a disputa, superando três concorrentes de peso. Um era Tales Alvarenga, que também virou jornalista e chegou a ser diretor da revista Veja. Outro era um certo João Batista, que mais tarde eu soube que passara no dificílimo concurso do Instituto Rio Branco. Tornou-se diplomata. Se não me engano, o terceiro era o Márcio Borges, grande letrista do Clube da Esquina, um dos integrantes do clã dos Borges em Santa Tereza e parceiro de Milton Nascimento.

Eu era bancário, trabalhava no Banco Mercantil. Certo dia, passados uns três meses, o repórter Francisco Morais Terra, o querido e brilhante Terrinha, já há muito embarcado, chegou ao banco com um fotógrafo para informar minha vitória e me entrevistar.

Daí pra frente foi uma sequência lógica. De crítico de cinema passei a repórter e, como era bom de texto e títulos, virei copidesque e editor. Também me tornei redator de publicidade.

Termino esse relato pouco interessante com meus agradecimentos póstumos aos atores Anthony Quinn e Alan Bates e ao compositor Míkis Theodorákis, autor da música tema ao som da qual Quinn e Bates dançam na antológica sequência final.

Eles me proporcionaram a prática do ofício que exerço desde então. O ofício de escrever. Não em grego, que é pra todo o mundo me entender. E também pelo fato de não saber grego, claro.

EMGE

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