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14/02/2019 | domtotal.com

Boechat e a corrida de revezamento

Experiência faz falta e está em desuso nas redações.Por sorte Boechat era uma exceção .

Hoje em dia jornalistas com mais de 50 anos são aposentados compulsoriamente e sou de uma geração que conviveu com profissionais muito mais velhos que foram, aliás, os que mais me ensinaram.
Hoje em dia jornalistas com mais de 50 anos são aposentados compulsoriamente e sou de uma geração que conviveu com profissionais muito mais velhos que foram, aliás, os que mais me ensinaram. (Divulgação / Band)

Por Ricardo Soares*

Veterano em chefias o jornalista Alberto Dines dizia que o segredo em montar uma boa redação era o intercâmbio de gerações. Sábia lição nada em voga atualmente onde experiência conta muito pouco na lida diária com a notícia, o texto, os fatos e as versões, estiva dura onde só se aprende fazendo.

Hoje em dia jornalistas com mais de 50 anos são aposentados compulsoriamente e sou de uma geração que conviveu com profissionais muito mais velhos que foram, aliás, os que mais me ensinaram. Não fui treinado e nem preparado para conviver com o fantasma do desemprego porque quando jovem os veteranos sempre tinham um bom e necessário lugar nas redações.

O assunto vem a tona com a morte do veterano e competente jornalista Ricardo Boechat que com seus 66 inspirou e ensinou uma legião de novos profissionais e é essa sua característica a mais valorizada segundo depoimentos dos mais jovens que atuaram do seu lado. Experiência faz falta e está em desuso nas redações.Por sorte Boechat era uma exceção e teve tempo de passar sua experiência para muitos.

Mesmo que alguns ponderem que estou puxando sardinha para a minha geração (ou o que a antecede) afirmo com convicção que há tanto jornalista experiente e de talento  fora do mercado que juntos , se empregados, fariam a melhor redação desse país onde os macetes e ensinamentos da profissão não são passados como numa corrida de bom revezamento.

Não vou agora santificar Boechat e o seu competente opinionismo desenfreado. Desnecessário dizer que ele tinha um  raro 'timing' de boa colocação e percepção, tanto na TV quanto no rádio como modestamente apontei aqui no DOM TOTAL em crônica de 26/08/2014. Aliás, muito mais no rádio, onde era muito bom e onde  mesclava uma legítima (ao menos aos olhos dos seus muitos apreciadores) indignação cívica com sua aparente liberdade de desancar tudo e todos, aliado a um certo olhar classista sobre questões que incomodavam os mais bem aquinhoados. Ou seja, chutava o balde. Mesmo que Boechat pouco soubesse  a respeito do assunto comentado, suas opiniões eram aplaudidas porque eivadas de indignação. Boechat era uma espécie de Google humano de opiniões. Escolha um assunto e ele opinava com aparente competência. Mesmo que muitas vezes com um olhar de "engenheiro de obra pronta" ele dava sempre a impressão de que entendia do que estava falando, mesmo que cometesse tremendos equívocos . Ou seja, era um ótimo profissional do "opinionismo desenfreado" e a expressão não embute qualquer cotação pejorativa.

Eu o ouvia quase todos os dias e apesar de discordar dele quase sempre acompanhava porque achava o cara tecnicamente muito bom, um animador da notícia. Fomos colegas de Estadão no fim dos anos 80.Eu no jornalismo cultural cobrindo também  assuntos de tv em São Paulo e  ele no Rio chutando,rebatendo,cabeceando,cobrando escanteio.Cobrimos juntos a briga entre Sbt e Globo sobre o passe do Chico Anysio. Ele cercando o Boni lá no Jardim Botânico, eu cercado o Sílvio Santos e o Stoliar  (então vice-presidente do SBT) aqui em São Paulo. Só nessa ocasião nos falamos poucas vezes por telefone porque dividíamos uma página para contar as versões do mesmo caso e não queríamos redundar. Já na ocasião muito mais conhecido e experiente do que eu foi extremamente respeitoso. Não falo isso para sugerir qualquer intimidade com o morto mas para ressaltar as suas  qualidades. Essas que tanta falta fazem nas "verdes" e inexperientes redações de hoje onde a tarimba não é valorizada muito embora seja agora, com a morte de Boechat, superlativamente lembrada. Boechat por competência e circunstâncias aos 66 mantinha-se no topo da profissão para sorte dele e nossa apesar de todas as suas idiossincrasias e contradições. Era a prova viva de que Alberto Dines estava certo. O segredo de uma boa redação é o intercâmbio de gerações. Mercado, olhai para os "velhinhos" a esmo.

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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