Religião

15/02/2019 | domtotal.com

Os mártires da ditadura

Enquanto no Brasil honram torturadores, a Igreja leva aos altares aqueles que sacrificaram a vida em prol dos direitos humanos.

Francisco reza em igreja dedicada aos nuovos mártires, localizada no centro de Roma, em 2017.
Francisco reza em igreja dedicada aos nuovos mártires, localizada no centro de Roma, em 2017. (L'Osservatore Romano)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Quando o assunto é violação dos direitos humanos, a Santa Sé não se manifesta com meias palavras. Em dezembro do ano passado, o secretário de estado do Vaticano, Pietro Parolin, iniciou uma consulta entre todos os vários organismos vaticanos para ajudar a diplomacia pontifícia a atuar de maneira mais eficaz na promoção desses direitos. Apesar de não ser um Estado-membro, a Santa Sé é observadora permanente das Nações Unidas (ONU), o que dá à instituição a possibilidade de participar das conferências - com direito de voto em assuntos procedimentais - e a ter a palavra durante os eventos promovidos pelo órgão.

“A natureza e os fins da missão espiritual da Sé Apostólica e da Igreja fazem sim que a sua participação às tarefas e atividades da ONU se diferencie profundamente do modo de participação dos estados enquanto comunidade em sentido político-temporal”, disse João Paulo II, durante a assembleia geral das Nações Unidas em Nova Iorque, em 1979.

A declaração universal dos direitos humanos, lançada três anos após o fim da segunda guerra mundial (1948), foi recebida negativamente pelo papa do período: Pio XII. Ele apresentou algumas ressalvas em relação ao documento, por considerar que, do ponto de vista ético, faltava uma fundamentação moral. Para o pontífice de então, que era radicado na doutrina escolástica da lei natural, o homem não poderia ter a pretensão de “se tornar ser autossuficiente e agir como se não dependesse de Deus”. Em vez disso, o seu sucessor, João XXIII - apesar de também ter apontado algumas lacunas em relação ao documento no tocante à autonomia do homem, a qual, segundo ele, “provinha de Deus, não das falsas doutrinas filosóficas em voga” -, não só reiterou o caráter positivo dessa declaração, como destacou  que a paz seria o fim último desses direitos. Desse momento em diante, entra em vigor uma interpretação católica pacifista dos direitos humanos.

A suposta resposta do Papa Francisco a Nicolás Maduro -  publicada em parte pelo jornal italiano a Corriere della Sera esta semana - , foi uma demonstração de que a Santa Sé não compactua com qualquer tipo de ingerência que ameace a dignidade humana. Uma vez que o líder venezuelano não cumpriu o acordo de amenizar a crise no país -  promessa feita nos últimos três anos após reuniões periódicas entre uma comissão do governo de Maduro e alguns países mediadores -, Francisco teria rechaçado realizar qualquer tipo de interferência diplomática. Porém, a informação ainda não foi confirmada nem desmentida pela Santa Sé.

 Em meio à esse caos que vive a América Latina, com ascensão de líderes que promovem a ditadura de maneira explícita ou velada, acontece a beatificação de 27 mártires argentinos que foram assassinados brutalmente pela ditadura. A celebração está marcada para o dia 27 de abril e será presidida por um enviado especial do Papa Francisco. Um dos que receberão as glórias dos altares, o bispo Enrique Angelelli, denunciou a violação dos direitos humanos por parte dos militares, em 1976, o que provocou o seu assassinato. Como para o Papa Francisco salvaguardar os direitos humanos significa “sustentar aqueles que são invisíveis perante a sociedade”, hora de honrar quem verdadeiramente lutou pelo bem comum, não pelos interesses de pequenos grupos detentores do poder.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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