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15/02/2019 | domtotal.com

Viva Augusto!

Poucos artistas e criadores apresentam uma dimensão tão rigorosa, tão percuciente, radical e potente quanto Augusto.

Credito: Augusto de Campos – VIVA VAIA.
Credito: Augusto de Campos – VIVA VAIA.

Por Eleonora Santa Rosa*

Augusto de Campos completou, esta semana, 88 anos. Marco de vida de um grande criador, de um dos nossos maiores e mais importantes poetas, com inúmeras marcas na cultura brasileira.

Sorte a nossa Augusto ter nascido no Brasil, ter feito sua obra de intensa maestria aqui, ter desempenhado papel desbravador não só no território da poesia, mas também das artes visuais, da música, da literatura. Seus ensaios, traduções, poemas, objetos, animações, hologramas, performances, espetáculos, leituras, enfim, toda a sua trajetória de vida/obra é um legado extraordinário, resultado de muito trabalho, competência, dedicação e lucidez.

Poucos artistas e criadores apresentam uma dimensão tão rigorosa, tão percuciente, radical e potente quanto Augusto, que mantém forte e ativa presença no cenário cultural. Chega aos 88, sem esmorecer, com senso crítico afiado, contrapondo-se à mediocridade e à mesmice que dominam o panorama nacional, prosseguindo seu percurso incansável e singular de fina sintonia e atenção com a experimentação e a criação de ponta.

Sua produção densa e vigorosa é formada por obras críticas de interesses múltiplos. Autor de livros fundamentais na formação do corpus poético nacional. Poderia aqui elencá-los um a um; infelizmente, o espaço deste artigo é exíguo para tanto, mas não perderia a oportunidade de mencionar, dentre eles, por predileção pessoal, o álbum EX POEMAS, pelo qual tenho paixão, sua extraordinária antologia VIVA VAIA (reunindo trinta anos de produção, abrangendo o período 1949 a 1979) e o imbatível DESPOESIA, de safra mais recente.

Impossível não louvar também suas traduções referenciais, um arco extraordinário composto por Rimbaud, Blake, Mallarmé, Maiakóvski, Joyce, Gertrude, Pound, Keats, Rilke, Hopkins, Emily, Cummings, Arnaut Daniel, dentre outros poetas provençais, metafísicos e de tantas linhagens mais.

Intelectual reconhecido no mundo, poeta de primeira grandeza, é inacreditável que ainda seja alvo de incompreensões, agressões, ‘sequestros’ e gestos de animosidade por medianeiros imediatistas, faroleiros da parolagem literária da academia tropical.

Mesmo assim, não foge à luta, não cede um milímetro à pressão, não se rende ao canto da sereia, não entrega os pontos, não abre concessão, NÃO SE VENDE, como bem expressa um de seus concisos-contundentes poemas. Poesia de iluminação, de essência, de transcendência, matéria-prima da arte que resiste com toda sua força, significado e invenção.

Tenho a sorte de conhecê-lo, de tê-lo como amigo e referência maior, sou sua admiradora confessa e sua poesia tem sido uma constante companhia e um alento sempre, suas traduções-arte são patrimônio da nossa língua, na companhia de seu irmão de sangue, Haroldo de Campos (extraordinário), e de vida, Décio Pignatari, além de outros parceiros da dimensão de Boris Schnaiderman.

Que alegria poder celebrar a nova idade do sempre jovem Augusto, desejando-lhe ânimo redobrado e esperança renovada.

Obrigada, Augusto, por tudo! Um brinde a você e à sua poesia, VIVA!

Poema Desplacebo - Augusto de Campos

Eleonora Santa Rosa – ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, atualmente é diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR.

EMGE

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