Brasil

15/02/2019 | domtotal.com

O amigo do pior

O Brasil irreverente do jeitinho, do levar vantagem, do tudo bem - continua atraindo os inevitáveis subprodutos: a gambiarra, o malfeito, o improviso, o descuido, a leviandade.

O Brasil irreverente do jeitinho, do levar vantagem, do tudo bem - continua atraindo os inevitáveis subprodutos: a gambiarra, o malfeito, o improviso, o descuido, a leviandade.
O Brasil irreverente do jeitinho, do levar vantagem, do tudo bem - continua atraindo os inevitáveis subprodutos: a gambiarra, o malfeito, o improviso, o descuido, a leviandade. (Jazz_rodv/ Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Enviei o arquivo à gráfica rápida, coisa simples: apenas a impressão de uma centena de folhas em Word e encadernação. Simples para a gráfica, mas não para mim: era um projeto que apresentaria numa reunião, resultado de um ano de trabalho. Ainda na sala de espera da editora resolvi dar uma conferida – e foi minha sorte. A impressão estava péssima, irregular, cheia de falhas; encadernada fora de ordem e até faltando folhas. Felizmente, pude descer à rua, encontrar outra gráfica e refazer tudo a tempo.

Na saída, dobrei uma esquina e quase fui soterrado por uma tempestade de telhas quebradas, lixo e galhos secos. Dois homens, no alto da marquise de uma loja – cantarolando - realizavam serviço de limpeza, atirando tudo na calçada. Como sabemos, a calçada é uma via utilizada por seres humanos, mamães com carrinhos de bebês, velhinhas rumo às compras. Nenhum cuidado, nenhum aviso, sequer uma miserável corda isolando o local, nada.

Agradecido por ter escapado ileso da avalanche, tomei rumo refletindo sobre este hábito abominável de fazer as coisas de qualquer jeito, ignorando o efeito dominó que pode provocar. Alguém, lá na gráfica, certamente tinha visto a grande porcaria encadernada – e nem ligou. O dono da loja, postado em frente e fiscalizando a limpeza, certamente tem consciência do risco aos pedestres, vítimas de telhas voadoras caindo sobre o passeio – mas continuou fazendo.

Daí para as recentes tragédias nacionais foi só um passo. A barragem estava abandonada; alguém sabia do perigo daquele troço. Mas... prevenir? Alertar? Desativar? Instalar sistema de segurança, sensores eficientes?

O engenheiro alemão – com décadas de experiência – repara que há uma fenda na estrutura da obra. Preocupado, faz fotos, redige um cuidadoso relatório, entrega ao chefe. E o chefe, sabendo que bloquear o local e fazer reparos custa caro, dá uma trabalheira danada e uma chateação dos diabos, corre os olhos, enfia tudo na gaveta e sai pra tomar cerveja.

A bióloga, após uma semana no meio do mato, cheia de mordidas de mosquitos e arranhões, ganhando um salário miserável da empresa terceirizada que finge cuidar do meio ambiente, prepara seu parecer e alerta que a obra prevista será um desastre. A dona da obra prevista lê a coisa superficialmente, dá um sorrisinho de desprezo e pressiona a turma para bater o carimbo de “aprovado”. 

O governo de Minas anterior autorizou explosões na área da barragem rompida, apesar de a consultoria técnica ter sido contra. O alojamento dos meninos que sonhavam serem craques de futebol era improvisado. Faltava a inspeção dos Bombeiros, o alvará da segurança. Em ambos os casos, burocratas, gerentes ou chefes, num gabinete com ar condicionado, certamente disseram:

- Ah! Pô, não complica; manda ver, toca em frente, libera aí!

O Brasil irreverente do jeitinho, do levar vantagem, do tudo bem - continua atraindo os inevitáveis subprodutos: a gambiarra, o malfeito, o improviso, o descuido, a leviandade. Continua desprezando alertas, pareceres qualificados, avaliações de gente experiente, opiniões de profissionais, advertências bem embasadas. Aí vem o acidente lamentável, a fatalidade. Mentira: é crime disfarçado sob eufemismos inconcebíveis.

Não adianta reclamar, chorar ou se lamentar depois. Se dizem que o bom é inimigo do ótimo, o ruim é amigo íntimo do pior.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

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