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18/02/2019 | domtotal.com

O olhar de um bombeiro de dentro da tragédia de Brumadinho: 'não há como não lembrar do 1º dia'

'Todos os dias têm sido bem extenuantes. Fomos uma das primeiras equipes a chegar. Foi um dia muito marcante', conta sargento dos Bombeiros.

Lázaro com os colegas de trabalho em Brumadinho no  Instagram 'Profissão de Honra'.
Lázaro com os colegas de trabalho em Brumadinho no Instagram 'Profissão de Honra'. (Foto de sargento Alcântara.)

Por Patrícia Almada
Enviada especial a Brumadinho

“Fui acionado por volta de 12h45 no dia 25 de janeiro. Estava voltando de férias e recebemos a notícia desta ocorrência. O sentimento é de se empenhar, se voluntariar e se deslocar o mais rápido possível, seja lidando com pessoas com vidas ou as que foram vitimadas fatalmente. Nossa seriedade é a mesma. É a de tentar dar uma resposta o quanto antes diante deste evento”. O relato do segundo sargento do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais (CBMMG) Lázaro Manoel Santos Rodrigues também faz parte da vida de outros bombeiros que trabalham e ainda vivenciam as consequências do crime socioambiental cometido pela mineradora Vale em Brumadinho, na Grande BH.

Até agora, foram registrados 169 mortes confirmadas e 141 pessoas desaparecidas. O trabalho do Corpo de Bombeiros para resgatar as vítimas, o esforço máximo, tanto mentalmente e fisicamente, é reconhecido pela sociedade, inclusive em âmbito internacional.

Para o sargento Lázaro Rodrigues, controlar a emoção, por mais difícil que a tragédia possa ser, é fundamental para fazer um bom trabalho, pois as situações de desastres são inesperadas. “Apesar de ter estado em Mariana também, quando a gente é acionado em uma ocorrência como esta, o inesperado é fato. Desde quando se entra para os bombeiros você se vê em algumas situações de dificuldade extremas, seja tecnicamente ou psicologicamente. Mas o bombeiro encara essa situação como um problema que precisa de solução. Existe a emoção, mas temos que deixar a razão nos ajudar a resolver aqueles problemas. Eu tento me ater aquela missão específica”, disse.

Lázaro atuando na tragédia em Brumadinho Foto (Arquivo pessoal)Lázaro atuando na tragédia em Brumadinho Foto (Arquivo pessoal)

Mesmo com preparo para controlar a emoção, Lázaro confessa que há situações da tragédia de Brumadinho que ficam na memória. “Todos os dias tem sido bem extenuantes. Mas não há como não lembrar do primeiro dia, 25. Fomos uma das primeiras equipes a chegar. Foi um dia muito marcante. Desembarcamos do helicóptero, vimos algumas pessoas com vida e outras não. Atuamos rapidamente, embarcando todos que encontrávamos. Foi um dia de muita atividade, emoções latentes. Um serviço que se estendeu pela noite afora, usando o máximo de limite  de luz disponível para as aeronaves. Nossos irmãos do batalhão de operações aéreas atuaram com muita presteza, pois voaram em condições delicadas. O primeiro dia para mim só foi se encerrar às 5h da manhã do dia seguinte", conta.

Lázaro passou, em 2014, pelo Curso de Salvamento em Soterramento, Enchentes e Inundações (CSSEI) do Batalhão de Emergências Ambientais e Respostas a Desastres (BEMAD) do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG). O treinamento expõe os candidatos a situações extremas. Atualmente, Lázaro é um dos instrutores do curso. Seu pelotão é especializado em busca e salvamento.

“O curso tem uma particularidade de você ser imerso dentro de uma realidade que se mistura à ficção, mas ela passa a ser muito real para o aluno. Tem características muito próximas à realidade de uma operação ou uma ocorrência real. O aluno se sente em uma experiência profissional e de vida”, explica.

Com experiência em salvamento, Lázaro, que também já trabalhou na tragédia de Mariana, ocorrida em novembro de 2015, conta a diferença de atuação nas duas tragédias. “A diferença de Mariana em relação a Brumadinho se deve à extensão da lama. Em Mariana a extensão foi muito maior. Fomos a outras cidades e andamos vários quilômetros fazendo buscas. Outra particularidade de Mariana foi o número de animais atingidos: ao meu ver, foi muito maior. Em contrapartida, em Brumadinho, teve um grande número de vítimas. Até para o bombeiro militar é muito chocante, porque é um desastre que superou o número de vítimas de Mariana (19 mortos). Além disso, as retiradas dos corpos em Brumadinho foram bem mais difíceis”, compara.

Lázaro atuando na tragédia  (Instagram ´Profissão de Honra´. Foto de sargento Alcântara)Lázaro atuando na tragédia (Instagram 'Profissão de Honra'. Foto de sargento Alcântara)
Lázaro ressaltou também que a lealdade dos seus ‘irmãos’ de farda é o que mais o marcou e deu força para continuar no resgate “São homens e mulheres que não se abatem, não desanimam. Seguem sempre em frente. São fortes e não desistem da missão. Ao mesmo tempo que as tristezas caminham ao lado, paralelamente a isso, vejo muito emprenho dos meus colegas, o qual tenho muito orgulho de compor”, finaliza.

Lázaro, que trabalhou os cinco primeiros dias interruptamente na tragédia de Brumadinho, voltou para a sua casa, descansou e agora retoma os trabalhos novamente por mais sete dias.

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