Religião

16/02/2019 | domtotal.com

Vaticano expulsa ex-cardeal McCarrick, acusado de abusos sexuais

Essa é a primeira vez na história da Igreja Católica que um cardeal perde seu título por motivos de abusos sexuais.

Papa Francisco aceitou sua renúncia como cardeal em 28 de julho de 2018. Neste sábado, o anúncio da sua demissão do estado clerical.
Papa Francisco aceitou sua renúncia como cardeal em 28 de julho de 2018. Neste sábado, o anúncio da sua demissão do estado clerical. Foto (AFP)
(Arquivo) Imagem de março de 2013 mostra o então cardeal americano Theodore McCarrick no Vaticano
(Arquivo) Imagem de março de 2013 mostra o então cardeal americano Theodore McCarrick no Vaticano Foto (AFP/Arquivos)

O papa Francisco devolveu ao estado laico o ex-cardeal americano Theodore McCarrick, de 88 anos, acusado de abusos sexuais contra ao menos um adolescente há quase meio século, indicou um comunicado do Vaticano neste sábado (16).

Essa é a primeira vez na história da Igreja Católica que um cardeal perde seu título por motivos de abusos sexuais.

O papa argentino declarou definitiva uma sentença nesse sentido da Congregação para a Doutrina da Fé, instituição do Vaticano que vela pelo respeito do dogma católico, detalhou um comunicado da Santa Sé. Segue o texto:

“Em data 11 de janeiro de 2019, o Congresso da Congregação para a Doutrina da Fé emitiu o decreto conclusivo do processo penal a Theodore Edgar McCarrick, Arcebispo emérito de Washington, D.C., com o qual o acusado foi declarado culpado dos seguintes delitos perpetrados como clérigo: uso impróprio da Confissão e violação do Sexto Mandamento do Decálogo com menores e adultos, com o agravante do abuso de poder, portanto foi-lhe imposta como sentença a demissão do estado clerical. No dia 13 de fevereiro de 2019 a Sessão ordinária (Feria IV) da Congregação para a Doutrina da Fé examinou os argumentos apresentados no recurso do recorrente e decidiu confirmar o decreto do Congresso. Tal decisão foi notificada a Theodore Edgar McCarrick em data de 15 de fevereiro de 2019. O Santo Padre reconheceu a natureza definitiva, segundo as normas de lei, desta decisão, que torna o caso res iudicata, ou seja, não sujeita a ulterior recurso”.

Esta punição, sem apelação possível e, portanto, definitiva, é aplicada pouco antes de uma reunião crucial, de 21 a 24 de fevereiro, com os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo no Vaticano, onde abordarão a responsabilidade dos prelados que mantiveram silenciadas as agressões sexuais a menores de idade executadas pelo clero.

Os grandes escândalos que foram revelados nos Estados Unidos, no Chile e na Alemanha mancharam a credibilidade da Igreja Católica.

O papa Francisco, que quer aplicar sua promessa de "tolerância zero", prometeu nestes últimos meses que seria intransigente com a alta hierarquia eclesiástica.

O ex-cardeal emérito de Washington já estava proibido desde julho de exercer seu ministério e depois renunciou ao seu título de cardeal. Com sua exclusão oficial da Igreja, o homem, recluso atualmente no estado do Kansas, nos Estados Unidos, simplesmente se torna Theodore McCarrick.

A Santa Sé solicitou em setembro de 2017 uma investigação ao arcebispado de Nova York, após o depoimento de um homem que acusou o prelado de ter abusado sexualmente dele nos anos 1970.

Diante dos "indícios graves" revelados na investigação, o papa destituiu no final de julho o monsenhor McCarrick do título de cardeal.

Este caso abalou a hierarquia da Igreja Católica americana, pouco antes da publicação de um relatório devastador sobre os abusos maciços cometidos na Pensilvânia.

Em 2015, o papa Francisco aceitou a renúncia do monsenhor Keith O'Brien a todos os direitos do cardeal, após ter demitido dois anos antes como arcebispo de Edimburgo quando foi acusado de "atos inapropriados" com jovens padres. O prelado, no entanto, manteve o título do cardeal até a sua morte, em março de 2018.

O único caso de abandono do título supremo do cardeal remonta a 1927, quando o papa Pio XI aceitou a renúncia do cardeal francês Lois Billot, que havia renunciado por motivos políticos.

Reconstrução do caso

Em setembro de 2017, a arquidiocese de Nova York assinalou à Santa Sé as acusações feitas por um homem contra McCarrick de que fora abusado por ele nos anos 1970 quando era adolescente. O Papa determina uma investigação prévia aprofundada , realizada pela arquidiocese de Nova York e na conclusão da qual a relativa documentação foi transmitida à Congregação para a Doutrina da fé. Em junho de 2018 o cardeal secretário de estado Pietro Parolin, sob indicação do Papa Francisco, comunica a McCarrick que não poderá mais exercer publicamente o seu ministério sacerdotal. Enquanto isso, no decorrer das investigações vêm à tona graves indícios. Em 28 de julho de 2018 o Papa aceita sua renúncia do Colégio Cardinalício, ordenando-lhe a proibição do exercício do ministério público e a obrigação de levar uma vida de oração e de penitência.

Em 6 de outubro de 2018, um comunicado da Santa Sé afirma incisivamente: “Tanto abusos como a cobertura dos mesmos não poderão mais ser tolerados e um diverso tratamento para os Bispos que os cometeram ou lhes deram cobertura representa, de fato, uma forma de clericalismo que não será mais aceita”. E reitera o “premente convite” do Papa Francisco “para unir as forças para combater a grave chaga dos abusos dentro e fora da Igreja e para prevenir que tais crimes sejam ulteriormente perpetrados prejudicando os mais inocentes e os mais vulneráveis da sociedade”. Em vista do encontro no Vaticano dos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo de 21 a 24 de fevereiro de 2019, sublinha por fim as palavras do Papa na Carta ao Povo de Deus: “A única maneira de respondermos a esse mal que prejudicou tantas vidas é vivê-lo como uma tarefa que nos envolve e corresponde a todos como Povo de Deus. Essa consciência de nos sentirmos parte de um povo e de uma história comum nos permitirá reconhecer nossos pecados e erros do passado com uma abertura penitencial capaz de se deixar renovar a partir de dentro” (20 de agosto de 2018).

Biografia

Theodore Edgar McCarrick, 88 anos, nasceu em Nova York em 7 de julho de 1930. Foi ordenado sacerdote pelo cardeal Francis Splellman há 60 anos atrás, em 31 de maio de 1958. Nomeado bispo auxiliar de Nova York em maio de 1977 por São Paulo VI. São João Paulo II nomeou-o bispo de Metuchen (1981-1986),arcebispo metropolita de Newark (1986-2000), arcebispo metropolita de Washington (2000-2006) o criou-o cardeal em 21 de fevereiro de 2001. McCarrick participou do conclave de 2005 que elegeu Papa Bento XVI

Trabalhou muito na promoção dos direitos humanos e da liberdade religiosa e come esta meta teve missões em numerosos países como a China, Cuba, Vietnã, Filipinas, Corea do Sul, Ruanda, Burundi e nos países da Europa do Leste. Em novembro de 1996 foi convidado para trabalhar no comitê consultivo da Secretaria de Estado para a liberdade religiosa no exterior e em julho de 1999 foi nomeado membro da Comissão dos Estados Unidos para a liberdade religiosa internacional, instituída no ano anterior por lei federal.

Papa Francisco aceitou sua renúncia como cardeal em 28 de julho de 2018. Hoje o anúncio da sua demissão do estado clerical.


AFP

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