Meio Ambiente

18/02/2019 | domtotal.com

Cadê a floresta que estava aqui? A lama da Vale engoliu

Recuperação da natureza de Brumadinho e arredores pode levar centenas de anos, afirma pesquisadora.

A lama tóxica da Vale inundou com quase 13 milhões de m³ o distrito de Córrego do Feijão, causando estragos em toda a vegetação.
A lama tóxica da Vale inundou com quase 13 milhões de m³ o distrito de Córrego do Feijão, causando estragos em toda a vegetação. (Nilmar Lage/ Greenpeace)

Além das muitas vidas humanas que a lama tóxica da Vale tirou em Brumadinho, a fauna e a flora da região também sofreram impactos, ainda difíceis de mensurar. A área atingida pelos rejeitos de mineração conta, ou contava, com uma biodiversidade riquíssima, ainda não totalmente catalogada.

Brumadinho se localiza ao sul da Reserva da Biosfera da Unesco da Serra do Espinhaço, uma região considerada refúgio de vida selvagem em Minas Gerais. Por ser uma área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, a importância ecológica deste lugar é enorme, porque abriga espécies animais e vegetais de ambos os biomas — muitas, inclusive, ameaçadas de extinção.

A vegetação próxima ao Córrego do Feijão e onde ele encontra o Rio Paraopeba, chamada de mata ciliar, está destruída pelos rejeitos. Essa mata era parte do corredor ecológico de muitos animais, possibilitando seu deslocamento entre áreas de floresta. Jaguatirica, lobo-guará, onça-parda, primatas como macaco-prego e sauá, veados e pequenos roedores estão entre os mamíferos que não mais poderão atravessar os córregos e rios. Entre as aves que habitam a região, podia-se avistar, por exemplo, a águia-cinzenta, o beija-flor-de-gravata-verde, a campainha-azul e o choca-da-mata. A perda de animais domésticos e de criação, como cachorros, gatos e vacas, também é incalculável.

Uma análise preliminar do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estimou que uma área de 270 hectares, o equivalente a 300 campos de futebol, foi coberta pela lama, sendo que quase metade (138 hectares) era de vegetação natural.

O restabelecimento total da paisagem, com todas as suas funções ecológicas, não será simples. “Não conseguimos saber quando esse ecossistema voltará ao normal. É uma recuperação muito lenta. Sendo otimista, diria centenas de anos”, alerta a ecóloga e professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Yasmine Antonini, que desde 2015 analisa os impactos do rompimento da barragem da Vale em Mariana.

Yasmine prevê que a morte da natureza em Brumadinho, um dos municípios da região com maior área preservada, se dará de forma semelhante ao que aconteceu em Mariana. Segundo ela, a lama tóxica mata a floresta de duas formas: ou as árvores são arrancadas pela violência da lama no momento do rompimento da barragem ou, caso resistam, são alagadas. Nesse caso, os rejeitos soterram e matam as raízes das árvores ao endurecer. “Em Mariana, as árvores morreram porque as raízes não conseguiam respirar, mas continuaram de pé, só o palito. Vai acontecer o mesmo em Brumadinho”, diz Yasmine.

A lama tóxica da Vale destruiu a rica biodiversidade da região, que conta com espécies do Cerrado e da Mata Atlântica por ser uma área de transição entre biomas

Contaminação generalizada

Os rejeitos carregados de elementos químicos contaminam e desequilibram toda a cadeia alimentar de Córrego do Feijão, e seguem descendo o Rio Paraopeba, dizimando a vida aquática. Conforme a lama vai secando, a poeira se deposita nas folhas, flores e solo.  

Entre as espécies vegetais encontradas na região, estão o jacarandá, braúna e  jequitibá, árvores frondosas da Mata Atlântica, e plantas do Cerrado, como a canela-de-ema, a maioria correndo risco de extinção. Junto com a vegetação, perdem-se insetos que dependem dela. É o caso da Melipona rufiventris, a abelha uruçu-amarela, e da Parides burchellanus, a borboleta ribeirinha, presente somente em outros dois lugares no Brasil.

“Um desastre como esse causa o pior tipo de destruição para a Parides burchellanus, que só existe nas margens de rios e córregos”, explica Onildo Marini Filho, especialista em borboletas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Antes de serem sufocadas pelos rejeitos, as áreas próximas da barragem da Vale atuavam como berçário para muitas espécies, por conta das muitas nascentes e riachos de água limpa. Agora, essa pequena bacia hidrográfica está praticamente morta.

Quanto vale a natureza de Brumadinho? Quanto vale cada vida que a Vale tirou? A vida das pessoas, árvores e animais jamais retornarão, mas é preciso que a Vale se responsabilize por cada vida tirada, para que tragédias como essa não voltem a acontecer. Você pode ajudar a pressioná-la, participando do abaixo-assinado aqui: https://act.gp/2SU3Eip #ParemAVale


Greenpeace, 15-02-2019.

EMGE

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