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19/02/2019 | domtotal.com

'No portal da eternidade'

E podemos constatar que Dafoe aprendeu mesmo a pegar no pincel e a usá-lo como o mestre holandês.

Van Gogh, pelo ator Willem Darfoe, candidato ao Oscar de melhor ator.
Van Gogh, pelo ator Willem Darfoe, candidato ao Oscar de melhor ator. (Lev Chaim)

Por Lev Chaim*

O título do filme já me pegou de cara e o assunto, o pintor holandês Vincent Van Gogh, mais ainda. A frase provém do nome de uma das pinturas geniais desse mestre, que hoje se encontra no museu holandês Kroller-Muller, quadro este que foi pintado em sua última morada na França, na clínica psiquiátrica de Saint-Rémy-de-Provence. O diretor é o grandão que também é cenarista, o norte-americano Julian Schnabel, que também tem noções de pintura. O ator principal, candidato ao Oscar, é o magistral Willem Dafoe.

O meu amigo e grande pintor Peter Bol, sua esposa, Madelon, e eu fomos ao cinema assisti-lo. Então, assisti o filme com peritos que me ajudariam a qualifica-lo que, mesmo antes de tê-lo visto, já me trazia água na boca. O diretor exigiu que o ator tomasse aulas de pintura, da maneira que o mestre holandês pintava: pinceladas fortes e decisivas, começando pelos contornos escuros, para depois ir colocando as cores. E podemos constatar que Dafoe aprendeu mesmo a pegar no pincel e a usá-lo como o mestre holandês.

Este filme, ao contrário dos outros muitos já realizados sobre o Pintor, é único. Em primeiro lugar, como disse o diretor do filme, Van Gogh não é um cara comum, um cara simplesmente louco, como possa ter aparentado. Ele era sim um gênio, angustiado e com medo do futuro e da morte, mas fazia o seu trabalho com garra e prazer  para tentar diminuir toda essa angústia que palpitava em seu peito. O seu irmão Theo Van Gogh o ajudava financeiramente e o seu amigo e pintor Gauguin o sustentava moralmente, pelo menos por algum tempo.

Caro leitor, você já sentiu o prazer de caminhar dentro de um bosque florido, com árvores grandes e coloridas? Já experimentou andar pelo campo de onde você mira o horizonte infinito, lá longe, tão lindo? Van Gogh, mais que outros pintores, tinha adoração e necessidade de pintar seus quadros na natureza, no local e não no estúdio como fazem muitos. Van Gogh era um homem feito para viver junto à natureza que lhe dava força e emoção para segurar os pinceis e explorar as ideias, deixando de herança todas as suas obras primas pintadas à sua maneira: pinceladas rápidas, sem economia de tintas. Era como se ele que não quisesse deixar escapar a visão daquele momento de serenidade.

Muitos outros filmes de Van Gogh o retrataram de diversas formas, até mesmo como um louco varrido que por acaso também pintava. Em “No portal da eternidade”, Julian Schnabel, também mostrou o lado angustiado do pintor, que o fez cortar uma de suas orelhas,  para dá-la de presente ao amigo Gauguin, que o iria deixá-lo só, no sul da França, em Arles. Mas, este filme é muito mais que apenas um quadro da insanidade do pintor. Ele capta o ato de Van Gogh no momento em que ele deixava a angústia de lado para dar as suas pinceladas nas telas e criar mais uma obra prima para a eternidade. É a história do pintor e sua pintura. O momento em que ele, feliz, quase tonto de tanta alegria, procurava nos bosques da França um local para retratar tudo que via. 

Além disso, o filme mostra um Van Gogh consciente de sua fraqueza e de sua angústia para com o futuro incerto. Mas, para um homem que pintou 75 quadros em apenas 80 dias, de louco mesmo ele não tinha nada, mas sim uma angústia criativa e poderosa, que o fazia citar coisas do tipo: “Deus é a natureza e a natureza é bela”. E tem mais. Quando ele foi levado para a clínica próxima à Paris, pelo seu irmão Theo, após ter retornado do sul da França, Van Gogh morreu aos 37 anos de idade. A teoria que vigorava era que ele havia se suicidado. Neste filme, adepto da nova e mais forte teoria, ele recebeu um tiro de um  dos jovens que o molestavam e foi morrer em sua cama. Mesmo assim, ele nunca revelou nada sobre o episódio, que foi contado, mais tarde, por testemunhas. 

Seu irmão chegou de Paris e Van Gogh havia acabado de deixar esta vida. Parabéns para o ator Willem Dafoe, por seu extraordinário desempenho de Van Gogh. Até nos esquecemos que estamos vendo um ator, e temos a impressão de que o próprio pintor em pessoa que nos diz tudo aquilo. Saímos da sala do cinema em silêncio e fomos ao bar local tomar um vinho. O meu amigo pintor, Peter Bol, estava quieto e sua esposa Madelon também. Num certo momento, ela disse, com lágrimas nos olhos: “Esta é toda a minha vida, de acompanhar todos esses anos o meu marido pelos bosques da Europa, para que ele possa pintar os seus quadros sossegado. Por causa deste filme, voltei a me apaixonar pelo pintor”. É claro que ela se referia ao marido.

E neste filme ficou claro: Vincent van Gogh pintava o que ele achava que devia pintar e da forma que considerava mais certa e nunca para agradar clientes ou coisa parecida. Ele mesmo dizia que era um pintor para as futuras gerações. E isto ficou provado. Van Gogh só ficou famoso muito depois de sua morte e da morte de seu irmão Theo. A esposa de Theo tocou em frente os negócios e editou um livro com a correspondência trocada entre Van Gogh e Gauguin. Depois do livro ter feito um tremendo sucesso é que as pinturas de Van Gogh começaram a ser requisitadas, cada vez mais, pelo público.

Peter, também sob forte impressão do filme, disse algo inusitado: “O filme foi perfeito em tudo, ou melhor, quase tudo. No final, quando Van Gogh pintava o médico diretor da clínica, Paul Gachet, tela que está hoje no museu de Paris Quais D’Orsay, ele coloca a tela entre seu corpo e o objeto que pintava, no caso o médico. Van Gogh nunca faria isso. Qualquer pintor sabe disso. Você se cansa de ficar olhando por cima da tela, toda hora que quiser mirar algum detalhe do objeto pintado. A tela tem que estar meio de lado, e você olha para a esquerda e vê o seu modelo.”

Por um instante fiquei mudo. Então você não gostou do filme? - perguntei a Peter Bol. Ele disse: “ Adorei. Isto que disse foi apenas um detalhe técnico que não atrapalha em nada este apaixonante filme que mostra a química da natureza com o pintor, onde ele consegue driblar a angústia e a ansiedade ao caminhar pelos bosques e pintar os seus quadros”.  Neste meio tempo Madelon já havia secado suas lágrimas e fomos embora para a casa felizes, por termos visto esta obra prima sensível e única sobre a vida do grande Vincent Van Gogh, sob a direção de Julian Schnabel e a esplendorosa atuação de Willem Dafoe. Com certeza, ele vai ganhar o Oscar de melhor ator!

Caro leitor, assista e me diga depois se tenho ou não razão! 


*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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