Religião

19/02/2019 | domtotal.com

Dorme o menino ou 'a carne mais barata do mercado'

Vidas negras importam e não devem ser tratadas somente como estatísticas.

Segurança do supermercado Extra, depois de imobilizar o jovem Pedro Henrique, o estrangulou com um golpe de gravata.
Segurança do supermercado Extra, depois de imobilizar o jovem Pedro Henrique, o estrangulou com um golpe de gravata. (Reprodução)

Por Tânia da Silva Mayer*

Há músicas que parecem pintar o retrato da sociedade para as quais são produzidas. É exatamente isso que acontece com a canção “A carne”, do álbum “Do Cóccix Até o Pescoço” (2002), da incrível cantora Elza Soares. Na música, o refrão riscado na voz de Elza apresenta a amarga constatação de que a “carne mais barata do mercado é a carne negra”. Desde o lançamento até hoje, passaram-se dezessete anos e a história que a canção ajuda a contar parece agudizar-se cada dia mais. Todos os dias são de luta contínua por respeito e por justiça para negros e negras. Diga-se de passagem, a gente preta do país compõe, ao lado dos autodeclarados pardos, a maior parcela da população brasileira. Ao cruzar os portões das casas, quando as possuem, a sorte de poder regressar vivo e sem ter tido a dignidade usurpada está lançada. Certamente, a maioria terá sofrido por isso ao longo do dia e de diferentes modos.

É bárbaro o assassinato do jovem Pedro Henrique, de 19 anos, no hipermercado Extra na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, no 14 de fevereiro, por um segurança da loja, que, depois de imobilizar Pedro, o estrangulou com um golpe de gravata. O que mais impacta nesse caso é que toda essa barbárie aconteceu diante de outros seguranças e de diversas pessoas, que até tentaram alertar para a condição de insuficiência respiratória do jovem assassinado, mas que nada mais fizeram. Ao contrário, nenhuma pessoa ali presente acolheu a mãe de Pedro Henrique que alertou e suplicou para que o segurança Davi Ricardo Moreira Amâncio saísse de cima do jovem já imobilizado, ninguém foi capaz de retirar pela força o segurança Davi mesmo percebendo que o Pedro estava em vias de morrer estrangulado. Isso é um crime assistido por muitos cúmplices, pessoas nutridas por indiferença e preconceito, que consideram que a vida de um jovem negro nada importa.

E a vida do Pedro Henrique, assassinado ali mesmo onde caiu, não somente é a mais barata do (hiper) mercado, como vale e choca muito menos que a vida do cachorro morto barbaramente por outro segurança do Carrefour, em dezembro passado. Naquela ocasião, o assunto era digno da revolta de internautas defensores da dignidade dos animais que pediam a punição para o assassino da vez. Agora, no assassinato do Pedro, nenhuma revolta ou manifesto. Ao cão, a comoção. Ao Pedro e ao seu corpo negro, o chão e os olhares de quem assiste o assassinato de mais um jovem brasileiro sem se afetar minimamente por isso. Que tragédia de humanidade é essa na qual estamos nos transformando?

Vidas negras importam e não devem ser tratadas somente como estatísticas. Indignar-se com esse acontecimento e se envolver para que violências como essa não sejam cometidas outras vezes contra garotas e garotos pretos e pobres é imperativo ético a ser cumprido, sob pena de desumanidade para seu contrário. O menino dorme no chão do mercado e por isso já somos muito piores do que temos sido desde a Escravidão: consumistas imorais da carne mais barata do mercado.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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