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19/02/2019 | domtotal.com

Verão 90 - uma novela desnecessária

Esta pequena aberração da teledramaturgia contemporânea, de tão rasa e claudicante, consegue ser errada da cabeça aos pés.

De todos os defeitos de Verão 90, este é o pior deles: não está preocupado em fazer pensar.
De todos os defeitos de Verão 90, este é o pior deles: não está preocupado em fazer pensar. (João Cotta / Globo)

Por Alexis Parrot*

Tenho a tendência de me interessar mais por novelas que se desenvolvem a partir de uma questão. Não que esta premissa garanta intrinsecamente qualidade ou sucesso à obra, mas é um bom ponto de partida. Afinal, para conquistar nossa disposição de sentar em frente à televisão durante meses, alguma relevância deve ser cobrada.

Vale Tudo é uma das grandes representantes desta categoria. Mesmo passados 30 anos de sua exibição, não sai de moda justamente porque discutia a ética; ainda hoje um dos problemas mais graves do país. Da mesma estirpe, podemos juntar a ela Celebridade, também de Gilberto Braga, ou o díptico Terra Nostra/Esperança, de Benedito Ruy Barbosa: um retrato apaixonado da presença do imigrante italiano na formação econômica-cultural do Brasil moderno.

Trilhando o caminho oposto, não acredito na eficiência daquelas puramente conceituais, cenário onde se enquadram, por exemplo, novelas que exploram uma representação exótica de culturas como cerne narrativo (não importa se a de indianos, ciganos ou nordestinos). A novela de época, mal conduzida, também pode se encaixar facilmente neste escaninho.

Porém, da mesma forma que no caso anterior, nunca será apenas este aspecto a determinar um fracasso de audiência ou indicar grave deficiência que não possa ser compensada pelo talento dramatúrgico. Como todo fenômeno cultural, a telenovela será sempre mais complexa que qualquer tentativa de formulação maniqueísta.

Mas há exceções. Verão 90, esta pequena aberração da teledramaturgia contemporânea, de tão rasa e claudicante, consegue ser errada da cabeça aos pés.    

Para começar, não apresenta absolutamente nada de novo em termo de tramas. Mais uma vez, acompanhamos a saga de irmãos em conflito, um bonzinho e um do mal - já teve na areia, Ruth e Raquel; já teve na Record, Moisés e Ramsés; já teve do Walcir Carrasco, Félix e Paloma; e até no México, Paulina e Paola Bracho! 

Sobre vender sanduíche na praia para ganhar a vida honestamente e, a partir daí, construir um império da gastronomia, podemos escolher entre a Raquel Aciolly de Regina Duarte (em Vale Tudo) e a saquaremense Janaína de Dira Paes.

A integrante de banda infantil que fez sucesso no passado e se ressente do ostracismo é o nó dramático inicial de Samantha!, série apenas regular do Netflix, mas com alguma crítica - e só por isso, já mais interessante que a novela das sete.

Uma mulher madura às voltas com a paixão de um bronco de poucas posses e mais jovem é uma situação já vista e passada a limpo um sem número de vezes. Talvez o par mais emblemático a ter vivido este amor "proibido" tenha sido Roberta Leone (Gloria Menezes) e Nando (Mario Gomes) em Guerra dos Sexos.

E não podemos esquecer que a própria Claudia Raia reprisa agora com o insuportável Klebber Toledo nada muito diferente do dilema que passou nos braços do Gianecchini em Belíssima.

Até mesmo uma das poucas boas surpresas da novela, o divertido Jofre de Luiz Henrique Nogueira, o fiel escudeiro da Lidiane de La Raia, além de ser uma entidade recorrente em qualquer novela, perde muito de sua força por ter vindo na esteira recente de um análogo seu que conquistou o coração do público.

Estou falando do carismático Groa (André Dias), o pai de santo islandês que defendia a amiga, marisqueira e dj Ariela (Giovana Antonneli) com unhas e dentes, em Segundo Sol.  

O título da novela está errado, deveria se chamar Vale a Pena Ver de Novo.    

Há também um grande desacerto no tom. Não bastassem as péssimas interpretações de praticamente todo o elenco (que podem ir desde a caricatura histérica - como a de Claudia Raia - até a inanição total - como a de Humberto Martins), até mesmo quem já mostrou talento em outras oportunidades, parece ter se esquecido do que significa representar - caso da própria Raia e da ex-Emília e ex-empreguete Isabelle Drummond.

O ritmo é outro problema: o frenesi videoclipaico não ajuda quem tenta assistir. Tem-se a impressão de que todos estão correndo o tempo todo, mesmo sem saber para onde - culpa do texto fraco e situações improváveis; responsabilidade exclusiva do par de autoras da novela. O que se vê na telinha resulta em estética vazia e cansativa.

Quer remeter aos anos 90, mas é desbotado no que propõe. Lembra sim a vibração de Armação Ilimitada, grande marco da nossa TV, porém, dos anos 80.

Decepciona mais porque é a volta de Jorge Fernando ao horário que o consagrou como diretor de novelas, após superadas as complicações de um sério AVC sofrido em 2018. Custa acreditar que o talento que nos deu Cambalacho, Brega e Chique e Vamp esteja realizando o que mais parece uma temporada (das mais fracas) de Malhação.

Se a novela pretendia ser a reencarnação da década, dando a este sentimento o pilar de tudo que se construiria em volta, a pesquisa merecia um papel mais central, assim como a verossimilhança.

Na parte musical, mesmo que não o ideal, ainda vá lá que a trilha sonora seja composta de canções lançadas na década anterior, algumas até seis anos antes da ação da novela, situada em 1990 nesta reta inicial (Uma noite e meia, de Marina Lima; Nós vamos invadir sua praia, do Ultraje a Rigor), mas é imperdoável a presença de músicas que ainda não existiam na época.

A música de Roberto Carlos, as Canções que Você Fez pra Mim, tema de amor dos personagens Janaína e Herculano, gravada por Bethania em álbum homônimo, é de 93.     

Ou o pior furo, quando um dos personagens à frente da tal Pop TV começa a cantarolar o sucesso internacional do jazzista Scatman John - que seria lançado apenas no final de 1994. Pelo jeito, a exemplo da sensitiva vivida por Fabiana Karla na novela, o rapaz também é vidente.

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Estou acompanhando com grande prazer a nova série de comédia do canal norte-americano Showtime, Black Monday, ainda sem previsão de estreia no Brasil. Em um rápido resumo, o programa faz um interessante exercício de fabulação do que teria causado o grande crash da bolsa de Nova York em 1987.

É uma produção de época que, ao contrário de Verão 90, vai fundo na tentativa de captar o zeitgeist do tempo que pretende reviver. Tem protagonistas negros (Don Cheadle, afiadíssimo; e uma Regina Hall, de Girls Trip, brilhante) e esta é a senha para tratar sem hipocrisia o racismo e preconceitos da era Reagan em terras do Tio Sam. Infelizmente, chegamos à conclusão que de lá para cá é uma questão ainda por resolver (quer seja nos EUA ou no Brasil).

Em diálogo memorável do quarto episódio, um colega de trabalho branco pergunta à personagem de Hall se o filme Soul Man (Uma Escola Muito Louca) não é racista, apesar de um libelo contra o racismo. A resposta dela vem rápida e exata: "todos os filmes são racistas".

Acumulam-se as citações à cultura pop de então, mas nada é gratuito. Servem sempre como comentário, quer seja da narrativa ou da época em que a história se passa. O saldo é uma visão ferina e aguda dos anos 80; os costumes e a ideologia que se professava, os deuses de barro em que yuppies acreditavam e o excesso de cocaína que circulava impunemente nos bastidores de Wall Street.   

Este esmero em moldar criticamente outra época seria o suficiente para colocar Black Monday em um lugar de destaque no panteão da TV, mas a série consegue ir além, graças ao texto e estrutura dramática inteligentes, elenco bem entrosado e humor realmente engraçado.   

E mais um detalhe, o arremate final: nos faz pensar no hoje, ao relembrar o passado - algo que vem naturalmente de gibeira em produções de época impecáveis.

De todos os defeitos de Verão 90, este é o pior deles: não está preocupado em fazer pensar. Joga com citações históricas a esmo e comete somente gracinhas com referências daquele momento. Lambada, Chacrinha e Plano Collor acabam caindo na mesma cova rasa, tudo em nome de um entretenimento desmiolado e escapista.

E a época, que deveria ser a mola propulsora de todo o drama, torna-se pano de fundo sem vida. Se aquela história poderia se passar em qualquer tempo, por que não situá-la no tempo atual?

A impressão que fica é de que tudo não passa de mero capricho.

*Alexis Parrot é diretor de Tv, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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