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22/02/2019 | domtotal.com

De famílias & afetos

Em coisas de gente, no final das contas vale mesmo é o amor, o afeto sincero, o carinho, o desejo abençoado de cuidar e de proteger alguém, além de qualquer convenção de condomínio.

Os personagens foram cuidadosamente construídos, retratando a diversidade dos ambientes familiares de nosso tempo
Os personagens foram cuidadosamente construídos, retratando a diversidade dos ambientes familiares de nosso tempo (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Acabei de ler um dos livros de Chiara Gamberale, jovem autora italiana que já brilha, com merecimento. “As luzes nas casas dos outros” (Le luci nelle case degli altri” – Ed. Mondadori) conquistou-me no momento em que abri o embrulho. O título intrigante e poético dava o tom do conteúdo fascinante que devorei, guloso.

Não sei se será traduzido no Brasil, por isso faço aqui um rápido resumo. Missão impossível: uma amostrinha jamais poderá conter as angústias, as paixões, as ironias e sobretudo a solidão de Mandorla, a garota protagonista da história. Ela é fruto de uma aventura, de uma chamada produção independente da mãe, Maria – figura rebelde, doidona, querida por todos. Maria tornou-se amiga dos moradores de um prédio que frequentava dando aulas de ioga e atuando como confidente e guru informal. Sua presença flutua pelo livro, quase invisível, já que ela morre nas primeiras páginas, deixando a filha pré-adolescente desamparada. Mas... cadê o pai da menina? Quem seria ele? Esta incógnita é o fio condutor da narrativa. Dito assim, pode até parecer piegas, enredo banal de novelas mexicanas. Mas não se iludam: a coisa é muito mais séria e profunda.

Os moradores do prédio, sensibilizados, fazem um pacto: decidem adotar a garota e combinam que Mandorla viverá temporadas nas casas de todos, em rodízio. Os personagens foram cuidadosamente construídos, retratando a diversidade dos ambientes familiares de nosso tempo. No condomínio há casamentos felizes e outros em crise; adolescentes e seus conflitos típicos; um casal gay; solitários que jantam e proseiam com amigos imaginários; gente modesta e intelectuais arrogantes – e por aí vai. Boa parte do sabor do livro está no convívio e nas reflexões da adolescente - observando, aprendendo e filosofando sobre as personalidades variadas daquelas pessoas, seus modos de encararem a vida e seus esforços para lidarem com laços de afeto, sonhos, raivas ou desencontros.

Foi inevitável fazer um paralelo entre a bela ficção de Chiara Gamberale e a nossa realidade. As estruturas tradicionais vão caindo e nos espaços vazios brotam novos valores, modas e comportamentos – alguns, louváveis; outros, delirantes; outros, ainda – digamos - em fase de testes. No decorrer da leitura também martelou-me a cabeça um provérbio atribuído a uma comunidade africana: “É necessário toda a aldeia para se educar a criança”, ideia que aprovo com louvor. Penso que quanto mais gente nossos filhos conhecerem, melhor para eles – seja gente “boa” ou “má” (como se sabe, conceitos bastante discutíveis em função das circunstâncias). A vida é feita dessa diversidade e o amadurecimento passa obrigatoriamente por experiências de convívio opcional ou forçado. Sem redomas, mimos ou proteções ilusórias, deixemos nossos filhos experimentarem. Vida é assim mesmo: imprevisível, incontrolável e desafiante.

Lendo os percalços daquela gente interessada na educação de Mandorla lembrei-me de inúmeros amigos e amigas. Privados pelo destino de relacionamentos convencionais, pularam fora dos padrões, sem medo, e fizeram melhor. Pegos no susto e cutucados em seus brios, assumiram suas crias – frutos de casamentos encerrados, produções independentes, filhos adotivos, enteados, sobrinhos, irmãos, agregados – com dedicação e comprometimento que não são vistos, infelizmente, em muitas famílias “normais”.  

Em coisas de gente, no final das contas vale mesmo é o amor, o afeto sincero, o carinho, o desejo abençoado de cuidar e de proteger alguém, além de qualquer convenção de condomínio. É esta a luz que brilha no livro e nas casas dos outros. E que continue a brilhar também nas nossas, em contraponto à escuridão crescente que nos ronda e ameaça.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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