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01/03/2019 | domtotal.com

A grana do Carnaval

Depois de uma década de falcatruas e safadezas no plano estadual e federal, as prefeituras brasileiras estão mesmo de chapéu na mão.

15 prefeitos já anunciaram que não irão patrocinar o carnaval em suas cidades este ano.
15 prefeitos já anunciaram que não irão patrocinar o carnaval em suas cidades este ano. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Gosto não se discute – só se lamenta, é verdade. Tem muita gente que no Carnaval se diverte mesmo, enche a cara, pula e se refaz do estresse da vida real – nada contra esses, lógico. O que me causa certa ressaca é sentir o cheiro de dinheiro público transformado em confete, serpentina, alegorias, fantasias e adereços.

Fosse o Brasil um país mais justo, com menos desigualdades e carências, vá lá: que se gastasse essa grana para financiar a alegria do povo. Mas, não. No entanto, já há sinais animadores no horizonte. 15 prefeitos já anunciaram que não irão patrocinar o carnaval em suas cidades este ano. A crise financeira foi apontada como o principal motivo que fez as cidades seguintes caírem na real: Ji-Paraná (RO), Ariquemes (RO), Jardim (MS), Terenos (MS), Chapadão do Sul (MS), Anaurilândia (MS), Paranaíba (MS), Votorantim (SP), Piracuruca (PI), Dom Pedrito (RS), Canoas (RS), Belterra (PA), Viçosa (MG), Tobias Barreto (SE) e Itabuna (BA).

Em Ji-Paraná este já é o terceiro ano seguido que o Carnaval de rua é cancelado. A prefeitura informou que vai investir os R$40 mil destinados para a festa em outros projetos. Não é legal? O prefeito de Jardim justificou assim o cancelamento: “Carnaval será realizado pela prefeitura de Jardim? Não! Foi orçado um valor de R$ 95 mil para 3 noites e uma matinê. Porém, usaremos este dinheiro para pagar rescisões de servidores, kits e uniformes escolares, além de fornecedores”, escreveu o sensato alcaide.

Em Bonito, a prefeitura fez uma enquete prévia para saber a opinião dos moradores: “Você prefere que os recursos estimados em R$200 mil sejam gastos com a realização do Carnaval deste ano ou com a compra de uma ambulância nova no mesmo valor?” Em Tobias Barreto, a razão principal do cancelamento foi a crise hídrica. Segundo a prefeitura, a barragem que abastece a cidade secou e mais de 30 mil famílias estão sem água. Melhor assim, pensei: como lavar o xixi das ruas após a festa?

Depois de uma década de falcatruas e safadezas no plano estadual e federal, as prefeituras brasileiras estão mesmo de chapéu na mão. Por outro lado, acho muito esquisita esta história do governo distribuir milhões de preservativos de graça. Ora: o cara tem dinheiro pra cerveja mas não tem pra comprar a própria camisinha? Trata-se de paternalismo piegas, favorecendo o espírito adolescente que domina as massas. E desconfio que algum figurão deve estar lucrando uma grana preta com esta distribuição desinteressada. 

Eu, como de hábito nos últimos anos, vou passar o Carnaval no fundo de minha caverna, fantasiado de urso, cochilando. Porém, quem disse que um cara como eu, que não curte Carnaval, também não pode se divertir durante esses dias? Ligo a TV num desfile qualquer (ou na exaustiva repetição de um desfile pelos telejornais) e retiro o som. Em seguida, me estico no sofá e contemplo a patética condição humana, filosofando sobre essa estranha obsessão de “ser feliz pelo menos no Carnaval”. Aprofundando minha pesquisa existencial, talvez no próximo março saia a campo com uma entrevista de apenas duas perguntas: “Olá, folião! Você está rindo de quê?” e “De quantas cervejas você precisou para atingir o estágio de felicidade momesca?”

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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