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21/02/2019 | domtotal.com

Os desvalidos da Vale

Não podem pescar no riacho os lambaris que fritavam para o aperitivo do dono da casa e para o arroz-com-feijão do almoço e da janta.

Não podem mais ouvir o cantar do galo no terreiro e o trinar dos passarinhos que brincavam nas árvores e voavam ao redor das janelas.
Não podem mais ouvir o cantar do galo no terreiro e o trinar dos passarinhos que brincavam nas árvores e voavam ao redor das janelas. (Adriano Machado / Reuters)

Por Afonso Barroso*

Ontem, à procura do sono perdido no meio da noite, fiquei imaginando como estão se sentindo as pessoas que a Vale desalojou. Expulsas de casa, passaram a morar em hotéis. Mesmo que fossem ou sejam cinco estrelas, essas novas moradias as sufocam, confinadas que estão numa vida distante dos seus costumes, do seu sossego, do seu trabalho.

Não podem apanhar os ovos que as galinhas botavam religiosamente, todo santo dia.

Não podem tirar o leite da vaquinha que garantia o sustento dos estômagos da família.

Não podem pescar no riacho os lambaris que fritavam para o aperitivo do dono da casa e para o arroz-com-feijão do almoço e da janta.

Não podem mais ouvir o cantar do galo no terreiro e o trinar dos passarinhos que brincavam nas árvores e voavam ao redor das janelas. Também eles, o galo e os passarinhos, foram despejados. Quem sabe até morreram na lama ou de saudade.

Para de certa forma compensar o mal que fez a essas famílias, é preciso que a Vale devolva a elas algo ao menos parecido com o que viviam e desfrutavam antes de saberem que estavam ameaçadas por uma lama assassina. A mesma que sepultou centenas de pessoas em Mariana e Brumadinho. Hotel não é lugar pra se morar, e sim pra se pernoitar por um tempo ou uns tempos, no máximo. Ali essas pessoas são mais prisioneiras do que hóspedes.

Foi então que o sono da meia noite chegou e trouxe com ele um sonho.

Sonhei que vi uma senhora já de certa idade, muito bem vestida, mas com cara de Madalena arrependida, chegando a um dos quartos do hotel. Sonhei que chamava a família ali hospedada. “Vamos, dona Maria. Vamos, seu Celestino, dona Vivalda, Joãozinho, Marcolina, Ducarmo, vamos sair daqui. Temos um lugar bom pra vocês recomeçarem a vida tal como a interrompemos dias atrás”.

Aquela senhora era a Vale. Repentinamente humanizada como jamais.

“Vamos, venham todos. Vocês terão sua casa de volta, com todas as suas coisas. Pode não ser exatamente como era antes, mas verão que é até melhor. Tem os passarinhos, tem o riacho, tem os lambaris, tem a vaquinha, tem o arroz-com-feijão. Sabemos que este lugar onde vocês estão agora, este hotel na cidade, não é nada bom. Aqui é lugar de pousada, não de morada.

E tem mais: tudo que vocês perderam está lá de novo. Os quartos da nova casa vão abrigar vocês todos, com camas arrumadinhas, gavetas cheias. Tem a sala com poltrona novinha, tem uma mesa de jantar, tem cortinas nas janelas.

Pronto, cá estamos. Vejam a cozinha. Está toda equipada. Tem os pratos, as panelas, as vasilhas, os talheres, o fogão, a geladeira, um micro-ondas. O quintalzinho é uma beleza, vamos lá pra vocês verem. Tão vendo as galinhas? E que galão, hein? Não é o da massa, mas é um belo galo.

Me esforcei para deixar vocês contentes. Peço que me desculpem, perdoem o transtorno que causei. E podem olhar sem medo as montanhas, que lá não tem nada daquele perigo a montante, não tem lama pendurada em cima das suas cabeças. Aqui vocês vão viver bem, é o que desejo, sinceramente. Tentem esquecer tudo, inclusive a mim, que se fiz mal, agora faço a minha obrigação de reparar os transtornos que os obriguei a passar. Assim como peço a vocês, peço perdão também a Deus. Que ele não me deixe fazer tanto mal a mais pessoas. Sejam felizes. Talvez eu venha visitá-los um dia desses pra tomar um cafezinho”.

Acordei. A velha senhora se fora. Mas deixou no ar um cheiro de morte.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

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