Religião

22/02/2019 | domtotal.com

Papa sobre pedofilia: 'responsabilidade e transparência'

Francisco se reúne com autoridades eclesiásticas para atenuar uma crise que coloca em xeque a credibilidade da Igreja Católica.

Papa Francisco discursa na abertura da reunião sobre a proteção de menores, no Vaticano.
Papa Francisco discursa na abertura da reunião sobre a proteção de menores, no Vaticano. (Reuters)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

O encontro mais aguardado do pontificado do Papa Francisco já está em curso, no Vaticano. O discurso proferido pelo pontífice durante a abertura da reunião, na última quinta-feira (21),  demonstrou que finalmente a Santa Sé se deu conta que o problema da pedofilia não é uma realidade isolada: algo que faz questionar desde a formação nos seminários católicos às nomeações episcopais. Mais que a punição dos casos, trata-se de promover uma transformação profunda e estrutural. Não seria a hora de revisar o Código de Direito Canônico, cuja última versão é de 1983? É o que os principais representantes da igreja na Alemanha apontam como uma das soluções, de modo que a punição aplicada aos sacerdotes seja mais rígida e se execute em colaboração com a legislação civil.

A assembleia, cuja proposta é debater o problema a partir de duas diretrizes apresentadas por Papa Francisco - ‘responsabilidade e transparência’ -, admite ao mundo a enorme contradição que existe quando em uma instituição que diz prezar pela dignidade humana e cuja matriz é, por essência, educadora, se manifeste esse tipo de crime hediondo. E Francisco tem consciência disso.

Em 3 anos, não foram poucas as denúncias de abusos contra menores e adultos envolvendo padres, religiosos e até um cardeal, o americano Theodore Edgar McCarrick, recentemente demitido do estado clerical por Francisco. A maioria dos casos, ocorridos entre as décadas de 70 e 80, só vieram à tona agora. Os acobertamentos e as falhas na deliberação de medidas concretas estão entre as principais causas desse “boom” que aconteceu do dia para a noite.

Em meio a esses escândalos que abalam as estruturas da Igreja Católica, o papel da imprensa tem sido fundamental. É tanto que, na coletiva de imprensa realizada esta semana, os membros da comissão responsável pela assembleia surpreenderam a todos ao elogiar o trabalho realizado pelos jornalistas, com destaque para os profissionais do The Boston Globe que integraram a famosa rede de investigação Spotlight. No caso do Chile, foi graças à apuração da jornalista chilena Paulina de Allende que o ex-sacerdote Fernando Karadima foi a julgamento.

Enquanto dentro dos ‘sagrados palácios’ os 190 membros da hierarquia católica discutem como lidar com essa crise, do lado de fora os membros de associações formadas por vítimas de abusos, que vieram a Roma, protestam em locais públicos, em frente à praça de São Pedro e no centro da cidade. É a voz do povo que clama por justiça e denuncia o abuso de poder presente em parte de uma estrutura marcada pelo clericalismo e pelo carreirismo, duas chagas que Francisco pretende combater e que, na visão dele, estariam por trás de todos esses crimes.

Um dia antes do início da reunião, 12 vítimas de abusos cometidos por religiosos encontraram os membros da comissão de combate à pedofilia na Igreja. O evento, cujo encerramento acontecerá no domingo (24), gera esperança porque é a primeira vez na história que um pontífice coloca nas mãos da Igreja universal a responsabilidade pelo ocorrido e, juntamente com ela, tenta achar uma saída para que tais situações dramáticas não se repitam.

É certo que, com a iniciativa, a expectativa é que a vigilância nas dioceses se intensifique, do contrário, tudo continuará do jeito que está. Os bispos bolivianos, representados pelo presidente da conferência episcopal, pretendem apresentar ao Papa Francisco a proposta de um “protoloco de atuação” contra padres pedófilos. Da mesma forma, outros líderes católicos terão a liberdade de propor linhas de ação no decorrer do evento. Agora é esperar para ver se, além dos documentos e boas intenções, esse mal seja erradicado de vez do seio da Igreja Católica.

“Nossa falta de resposta diante do sofrimento das vítimas, ao ponto de rechaçá-las e de acobertar o escândalo para proteger os autores e as instituições, acabou com o nosso povo”, disse o cardeal filipino Luís Antonio Tagle, um dos 9 relatores escolhidos para discursar durante a assembleia.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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