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25/02/2019 | domtotal.com

Uma chegadinha no mundo caipira

São impressionantes a beleza poética, as metáforas, o humor e as rimas construídas pelos autênticos músicos caipiras.

Tião Carreiro & Pardinho na capa 'Disco de Ouro' de 1979.
Tião Carreiro & Pardinho na capa 'Disco de Ouro' de 1979. (Reprodução)

Por Afonso Barroso*

Alguém alhures disse (não sei quem, mas disse-o bem) que só existem dois tipos de música: a boa e a ruim. Certíssimo. Eu, por exemplo, gosto de música boa, independentemente do estilo, escola, ritmo ou procedência. Pode ser clássica, popular ou caipira, religiosa ou infantil, rock ou balada, samba ou bolero, jovem guarda ou bossa nova, xote ou baião, jazz ou blues. Só não pode ser a tal de sertaneja universitária, porque essa é de todo ruim, não tem uma que se possa chamar de boa. Não conheço todas, obviamente, mas algumas que tive o desprazer de ouvir me fizeram acreditar que todas as outras são da mesma classe, ou seja, de quinta classe ou sem classe alguma.

Foi pensando nisso que resolvi fazer uma viagem breve pela boa música caipira, aquela autêntica, de viola e dupla cantante, que chamam de raiz, também apreciada pelo nosso sábio amigo Carlos Felipe Horta. São impressionantes a beleza poética, as metáforas, o humor e as rimas construídas pelos autores das letras de muitas dessas composições. Uma delas diz que “O rio de Piracicaba vai jogar água pra fora/ quando chegar a água/ dos olhos de alguém que chora”. É um exagero maravilhoso essa letra de Lourival dos Santos, com melodia do consagrado violeiro Tião Carreiro. Define um sofrimento caudaloso, cujas lágrimas são capazes de causar enchente no rio. Se eu fosse erudito, chamaria isso de hipérbole poética.

Também é do Tião Carreiro a moda que traz os seguintes versos: ”Apague com a mão do tempo/ Os nossos rastros deixados/ Como flores que secaram/ No chão do nosso passado”. Isto, meu amigo e minha amantíssima amiga, é a mais pura poesia.

Agora vejam esses de José Fortuna, outro craque do cancioneiro caipira: “Cabocla, quando tu passas/ pelas estradas contente/ Pisando na areia quente/ nas tardes do meu sertão/ Todos os passarinhos/ todas as flores te conhecem /Os campos verdes emudecem/ Olhando tua feição”.

Dá pra imaginar como é bela a “feição” da cabocla.

São também carregados de beleza os versos da moda Dois Travesseiros, dos compositores Biá e Dino Franco: “Travesseiro, meu amigo/ Que vive triste como eu/ A mulher que viveu sempre comigo/ Certamente por alguém nos esqueceu”. É soberbamente poético dar vida a um travesseiro que não mais serve de repouso para a cabeça da mulher amada.

A dupla Zé Mulato e Cassiano é uma das mais criativas do mundo caipira. Especializada em sátiras inteligentes, também faz poesia de qualidade, como nestes versos da moda que tem por título A Positivo: “Quem nega que Deus existe/ É cego e se desnorteia/Eu sinto a Sua presença/ Em tudo que me rodeia/ Do bramido da cascata/ Ao zumbido das abeia/ No ribeirão de água limpa/ Que no vale serpenteia/Até no A positivo/ Que corre nas minhas veia”.

É por essas e outras que gosto de ouvir tudo que é bom. Ouço Beethoven, Chico, Caetano, Almir Sater, Gil, Tom, Vinícius, Zeca Pagodinho, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Bach, Adoniran, Renato Teixeira, Cartola, Milton, Noel, Rubinho do Vale, Paulo César Pinheiro, Pereira da Viola, Rolando Boldrin, Vander Lee etc etc etc. E é por isso também que embarco todo dia no Trem Caipira que meu radinho de cabeceira sintoniza de madrugada na Inconfidência.

Como não diria o marechal em tempo de paz ou de guerra, sigam-me os que forem brasileiros da minha laia: Laia-ladaia-sabatana-avemaria.

EMGE

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