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26/02/2019 | domtotal.com

Por que ainda assistimos ao Oscar?

A festa é do cinema, mas é a TV que torna possível a celebração e o reconhecimento.

Acertou a Gaga que protagonizou um dos pontos altos da noite.
Acertou a Gaga que protagonizou um dos pontos altos da noite. (AFP)

Por Alexis Parrot*

Mais indefectível que o carnaval, os impostos e a morte, só mesmo a entrega do Oscar. Na noite do último domingo, pudemos acompanhar mais uma vez a cerimônia de premiação.

A festa é do cinema, mas é a TV que torna possível a celebração e o reconhecimento. Não fosse pela televisão, seria apenas mais uma ação entre amigos, um convescote fechado para poucos - daqueles que a gente vê as fotos dois dias depois nas colunas sociais.

Não importa se ali são servidos caviar e champã (e não aqueles canapezinhos com fios de ovos ou enroladinhos de salsicha com guaraná genérico), o fausto e ares de grandeza da cerimônia não conseguem esconder sua vocação genuína para baile de debutantes de cidadezinha perdida do interior.

É a televisão o agente a permitir que respingue em nós algo da poeira do estrelato ao nos afiançar uma participação (mínima que seja) na vitória de antigos e novos deuses da tela, assim como nos solidarizar em tempo real com os derrotados e injustiçados da vez.

Se o gosto pelo jogo não é uma unanimidade entre gregos e troianos, torcer faz parte da nossa natureza. E torcemos durante a premiação do Oscar; talvez não como torcemos pelo nosso time do coração numa final de campeonato, mas até o mais desavisado telespectador acaba torcendo também, se acaba aportando na transmissão do prêmio.

Gostamos igualmente de aplaudir e de vaiar, como também sentimos que foi obra de nossos próprios pés e habilidade aquele gol responsável por conquistar o título nos últimos minutos da partida. Porque torcer é tão pessoal quanto coletivo, daí sua beleza e necessidade.

Muito se profetizou sobre os perigos de uma cerimônia sem apresentador. Durante toda a semana a imprensa mundial reviveu o verdadeiro fiasco resultante da única vez que a Academia "ousou" a esse ponto, em 1989.

O espetáculo foi mesmo um desastre, mas não por isso. O verdadeiro culpado foi o número de abertura onde Branca de Neve e Rob Lowe dançaram e cantaram (mal) durante 15 minutos. O sofrível dueto foi amplificado pelo cenário com bananeiras, mesas dançantes e um desfile de velhos artistas caindo aos pedaços que, entre o atônito e o narcoléptico, pareciam não entender o que estavam fazendo ali no palco. Ao unir o extremo do kitsch com a decrepitude, todas as barreiras do mau gosto foram quebradas já na largada da festa.

O desastre foi tão estrondoso que marcou o ponto final na carreira do produtor do show, Allan Carr - cujo grande sucesso até então havia sido o filme Grease e as festas arrasa-quarteirão que promovia em sua mansão, cheias de sexo, drogas e algum rock'n roll. Hollywood virou as costas para ele e a Disney processou a Academia pelo uso sem permissão da imagem de sua princesa número um.

Justiça seja feita, pelo menos duas novidades foram introduzidas por Carr naquele ano que permanecem até hoje: a exibição do red carpet pré-festa como atração genuína e a mudança na maneira de se anunciar os premiados. Até então, quem abria os envelopes bradava: "And the winner is...". Na tentativa de diminuir o peso sobre o ombro dos perdedores, a partir de então, a frase passou a ser a agora eternizada: "And the Oscar goes to..." Nem que fosse só por isso, o saldo não foi de perda total.

Dessa vez, até tentaram inovar na busca sempre ingrata de encurtar o tempo da cerimônia, mas deram com os burros n'água. A primeira das ideias era relegar para os intervalos da transmissão a entrega de Oscars técnicos, o que foi rechaçado por todos os membros da comunidade cinematográfica norte-americana. Com a repercussão negativa, lançaram o famoso "não estou mais aqui quem falei". A iniciativa foi prontamente abandonada e vida que segue.

Todas as novidades, abortadas ou não, ganharam menção jocosa, com piadas internas na boca dos hosts de vários dos prêmios, em uma clara demonstração mais de egolatria que de autocrítica, como quem diz: "eu sou o meu assunto favorito".

A segunda ideia genial para dinamizar o programa foi ainda mais impactante. Logo que anunciada a supressão das apresentações ao vivo das canções concorrentes, Lady Gaga começou uma campanha agressiva nas redes sociais contra a medida - no que foi endossada por seus seguidores (coisa na casa dos milhões).

A Gaga é assim, feroz, ainda mais quando tentam destroná-la no que poderia ser o auge de sua carreira: uma apresentação transmitida ao vivo para o mundo todo, interpretando a música que, se tem muito pouco a ver com seu estilo, era a barbada certa para levar o prêmio.

Com a pressão popular, os produtores do espetáculo capitularam e as performances foram reintroduzidas no cardápio das atrações. Acertou a Gaga que protagonizou um dos pontos altos da noite, porém, mais por mérito da direção do show do que dela mesma, é necessário dizer.

O hit Shallow foi apresentado de maneira intimista, com uma câmera móvel posicionada atrás de Gaga e Bradley Cooper, a plateia à meia luz como pano de fundo. As estrelas da quarta versão de Nasce uma Estrela entregaram uma interpretação desigual, com um Cooper seguro e relaxado e uma Gaga muito nervosa, tremendo feito vara verde e tocando erraticamente as teclas de um piano que não se ouvia (se microfonado, o piano teria sido um desastre para a performance da Lady).

Fica a lição: no Oscar, ou você segura o tranco ou não; não tem nem meio termo e nem poker face que resista à pressão ou à emoção.  

Política, diversidade e genitoras

O primeiro discurso da noite, da vencedora de melhor atriz coadjuvante, Regina King, de Se a rua Beale Falasse, fixou o gabarito para todos que vieram depois. Ao escolher agradecer torrencialmente à sua mãe, após honrar o nome do escritor James Baldwin (autor do livro que originou o filme pelo qual concorria), parece ter ficado feio a partir daí não citar as mães nos agradecimentos - quer seja daqueles que têm o direito ou escolhem sentá-las a seu lado nas primeiras filas ou dos outros que as colocam lá nas galerias no alto e no fundo do teatro.

Ela terminou com um toque de política, mas apenas um toque, ao abraçar a sororidade e louvar também as companheiras de indicação. Este mantra, a política, também esteve presente a noite toda, porém, mais na composição dos casais que entregavam as estatuetas que nos discursos.

Negros foram pareados com asiáticas; asiáticos com caucasianas; caucasianos com negras; super-heróis com jovens estrelas em ascensão. A diversidade existe e ao abraçá-la no cartão de visitas da noite, a supor pelas caras e etnias com que a Academia quer que a identifiquemos, O Oscar nos esfregava na cara o tanto que ele é moderno e comprometido com as lutas por igualdade de minorias e despossuídos ao redor do globo.  

A política foi colocada em segundo plano pela maioria dos vencedores, que preferiram entoar como que em uníssono a conquista pessoal após toda uma coleção de adversidades sofridas. Expressões como "disciplina", "acreditar no sonho" e "inspiração" foram as favoritas dos que passaram pelo palco do Dolby Theatre. No final, ficou a impressão que estávamos assistindo não à entrega do Oscar, mas a um painel repetitivo de um desses Ted Talks da vida e suas lições de auto-ajuda e superação.

Alfonso Cuarón, responsável pelo lírico Roma (vitória do Netflix com três prêmios, que só não levou o de melhor filme justamente porque é do Netflix) parecia enveredar pela política ao afirmar que "a responsabilidade do diretor é olhar para onde ninguém olha". Chegou a exaltar o México, mesmo sem citar os ventos progressistas que afinal sopram por lá, mas pareceu perder o chão ao ver a quantidade de estatuetas que resolveram lhe conceder. Acabou só agradecendo e agradecendo, como sói a um convidado bem comportado em uma festa de gringos.        

Até mesmo o discurso mais virulento da noite, o de Spike Lee (recebendo inacreditavelmente o primeiro Oscar de uma carreira de quatro décadas pelo roteiro da maravilha que é o seu BlacKKKlansman), terminou piegas pedindo que o amor vença o ódio. Pelo menos inovou e não agradeceu à mãe na hora de botar a mão no Oscar. Agradeceu à avó.

Foi-se o tempo em que posicionar-se politicamente era de fato um posicionamento, como Marlon Brando fez, em 1973. Enviou uma índia, atriz e militante, para recusar o prêmio de melhor ator pelo Poderoso Chefão. A recusa foi um protesto pela maneira como a indústria cinematográfica e da televisão estereotipava os americanos nativos em suas produções.

Na era da banalização do discurso político, o Oscar 2019 apontou para outra direção, tentando se manter ativista na aparência, mas melodramático e ingênuo no conteúdo.

Puro Ted Talk.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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