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04/03/2019 | domtotal.com

O padre e a Virgem

Certa noite teve um sonho revelador.

Sentiu-se bem-vindo quando chegou e amado enquanto durou sua missão paroquial.
Sentiu-se bem-vindo quando chegou e amado enquanto durou sua missão paroquial. (Reprodução / Youtube)

Por Afonso Barroso*

Padre Luiz, fiel devoto de Nossa Senhora, achou que foi por obra divina sua designação para vigário de Santa Maria do Suaçuí. É que aquela pequena cidade do Vale do Rio Doce tem como padroeira exatamente a santa da sua devoção, Santa Maria Eterna.

Sentiu-se bem-vindo quando chegou e amado enquanto durou sua missão paroquial.

Não era santo como seu antecessor, o reverendíssimo Cônego Lafaiete, mas rigoroso na obediência aos cânones da Igreja e do sacerdócio, daí o respeito e admiração que angariou ao longo de quase quarenta anos como vigário.

Tinha um vício e duas manias o Padre Luiz: fumava muito, gostava de pescar e colecionava chaveiros. Tinha milhares deles, que sempre ganhava dos fiéis. Também gostava de piadas, mesmo as consideradas impróprias para consumo de religiosos.

Certa noite teve um sonho revelador. Sonhou que pescava em um rio enorme, quando viu emergir das águas uma imagem de Nossa Senhora. Viu subindo os braços erguidos para o Céu como em oração, a cabeça, depois o corpo inteiro de grandes proporções subindo, subindo, envolto nas vestes que caracterizam a imagem da santa: longo vestido branco e manto azul. Era Santa Maria Eterna, que pairou alguns segundos sobre as águas e desapareceu.

Acordou em feliz sobressalto, olhou para o oratório ao lado da cama, e lá estava ela, a pequena imagem que o acompanhava desde quando se ordenara no seminário de Diamantina. Levantou-se, ajoelhou e rezou. Sabia por que tivera aquele sonho.

Chamava-se Marcelo o artista a quem encarregou de desenhar um quadro grande da santa, em que ela era vista no alto de um morro. Uma vez pintado o quadro, aproveitou uma missa solene, com a igreja abarrotada, e mostrou a pintura ao povo durante o sermão. Disse que precisava de apoio da comunidade, da participação de todos para construção de uma imagem como aquela. Deveria, nos seus cálculos, ter mais de vinte metros de altura e ser edificada em local que já escolhera, um morro que podia ser visto de quase todas as partes da cidade.

“É muito comum ver a imagem do Cristo em cidades brasileiras. Mas da mãe do Cristo é coisa rara. E a nossa cidade tem Maria como padroeira. Precisamos mostrar que a adoramos acima de tudo. Peço que me ajudem a construir esta imagem”, disse na planejada homilia.

A adesão foi surpreendente: um arquiteto e um engenheiro ofereceram-se para elaborar o projeto, fazendeiros dispuseram-se a doar animais para leilões, comerciantes e funcionários públicos fariam doações em dinheiro, o proprietário do terreno escolhido para edificação da estátua doou a área, o prefeito garantiu a urbanização e o fornecimento da mão de obra.

E começou a construção da estátua, que foi ganhando forma no alto do morro, para admiração geral. Dois anos depois lá estava a enorme santa com seu manto azul e branco, no alto do morro, os braços erguidos aos Céus.

Hoje, quem chega a Santa Maria do Suaçuí admira aquela imagem enorme de Santa Maria Eterna, que parece estar a orar eternamente pela cidade à qual deu seu nome.

O sonho do vigário estava realizado quando ele se despediu da comunidade e do mundo terreno, aos 74 anos, vítima dos males do tabagismo. Chamava-se Padre Luiz Barroso. Era meu irmão.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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