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28/02/2019 | domtotal.com

O hino, o menino e o ministro

Cresci, estudei, aí passei a entender e admirar ainda mais o que considero o hino nacional mais bonito da terra.

Eu não entendia quase nada do que dizia o hino, mas cantava com todo o patriotismo que cabia bem dentro da minha infância.
Eu não entendia quase nada do que dizia o hino, mas cantava com todo o patriotismo que cabia bem dentro da minha infância. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

É lindo o nosso Hino Nacional. Tem melodia e ritmo vibrantes e arranjo que empolga até os não brasileiros. Aprendi a cantá-lo no curso primário do Jacuri. Só havia um porém: eu cantava sem entender nada do que dizia a letra.

Também pudera, pois o hino já começa com sujeito invertido: Ouviram do Ipiranga as margens plácidas. E como é que eu ia saber o que eram margens plácidas? Na sequência, é o objeto direto que vem invertido: De um povo heroico o brado retumbante. Coisa que complicava ainda mais a minha cabeça de criança.

Segue com E o sol da liberdade em raios fúlgidos/ Brilhou no céu da pátria nesse instante. Aí até que dava pra entender. Não muito, mas dava.

Vem então uma sequência de versos com os quais eu não me preocupava, porque não entendia nada mesmo, só sabia que eram bonitos: Se o penhor dessa igualdade/ Conseguimos conquistar com braço forte/ Em teu seio, ó liberdade/ Desafia o nosso peito a própria morte. Este último era um desafio mesmo, de quem tá a fim de briga.

Aí, uma expressão que eu entendia bem: Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve. Isso eu cantava com toda a força dos meus pulmões de dez anos.

Mas eis que a coisa se complicava de novo com versos inacessíveis à minha percepção ainda tenra: Brasil, um sonho intenso, um raio vívido/ De amor e de esperança à terra desce/ Se em teu formoso céu, risonho e límpido/ A imagem do cruzeiro resplandece.

Havia no Jacuri um cruzeiro numa pracinha. Era decorado com um punhado de peças como martelo, tesoura, machado, foice e outras, tudo de lata, que subiam pelo tronco acima até chegar ao topo, onde um grande galo, também de lata, parecia cantar para a cidade toda. Eu imaginava que fosse assim o cruzeiro do hino.

E lá vai mais uma estrofe cheia de ufanismo: Gigante pela própria natureza/ És belo, és forte, impávido colosso/ E o teu futuro espelha essa grandeza.

É bonito, mas não dava para uma criança da escola do Jacuri entender.

O refrão, este sim, eu entendia e cantava com fervor: Entre outras mil/ És tu, Brasil/ Ó pátria amada!/ Dos filhos deste solo és mãe gentil/ Pátria amada Brasil!

Aí vinham outros versos que não entravam de jeito nenhum na minha cabeça: Deitado eternamente em berço esplêndido/ Ao som do mar e à luz do céu profundo/ Fulguras, ó Brasil, florão da América/ Iluminado ao sol do novo mundo!

Como pode ser profundo o céu, se está lá no alto? Quando ao florão, nunca soube o que é.

E eis que tudo se complicava ainda mais nos versos seguintes: Do que a terra mais garrida/ Teus risonhos, lindos campos têm mais flores/ Nossos bosques têm mais vida/ Nossa vida no teu seio mais amores.

Campos lindos, tudo bem; mas risonhos?!

Havia ainda complicações maiores: Brasil, de amor eterno seja símbolo/ O lábaro que ostentas estrelado/ E diga o verde-louro dessa flâmula/ Paz no futuro e glória no passado.

Não sabia o que era lábaro e tampouco desconfiava que o verde-louro da flâmula é a bandeira nacional.

Havia mais coisas que eu não entendia, mas davam até medo, como: Mas se ergues da justiça a clava forte/ Verás que um filho teu não foge à luta/ Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Puxa vida, a clava deve ser uma arma, e a luta é pra valer.

Sim, meus queridos amigos e minhas amantíssimas amigas, eu não entendia quase nada do que dizia o hino, mas cantava com todo o patriotismo que cabia bem dentro da minha infância querida que os anos não trazem mais. Cresci, estudei, aí passei a entender e admirar ainda mais o que considero o hino nacional mais bonito da terra.

Agora, cá pra nós: duvido que o nosso ministro colombiano da Educação saiba cantá-lo como eu cantava quando menino. E entendê-lo como hoje entendo.

Seria até interessante fazê-lo cantar, gravar em CD e mandar para o presidente.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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