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07/03/2019 | domtotal.com

Um prefeito fora da curva

Nos seus três anos de administração, esse prefeito fez coisas que a maioria não faz.

Nos dias de hoje, é uma virtude não saber roubar.
Nos dias de hoje, é uma virtude não saber roubar. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Conheci um prefeito muito diferente da maioria. Raridade mesmo. Comanda uma cidadezinha do interior, que não vou identificar por solicitação dele próprio. “Falo com o que perguntar, mas não quero que diga meu nome nem o da minha cidade. Me faz este favor?”

Não entendi bem a exigência dele, mas tudo bem. Vou contar o milagre e ocultar o santo.

A pequena cidade, localizada em algum ponto quase perdido nos fundos do Vale do Rio Doce, não tem mais do que cinco mil habitantes. Desde sua emancipação, há pouco mais de 60 anos, foi administrada por prefeitos de vários estilos, alguns deles muito parecidos com certos governantes dos escalões estaduais e presidenciais, ladrões refinados e desavergonhados, useiros e vezeiros em surrupiar e embolsar os recursos do erário.

O prefeito em foco é um moço simples. Interiorano da gema. Criado na roça, filho de um pequeno fazendeiro, dono de umas poucas cabeças de gado. Não tem instrução que ultrapasse o Ensino Fundamental. Chegou à Prefeitura como candidato lançado pelo primo prefeito, que fora também um bom administrador, tanto que se reelegera com facilidade. Teria sido de novo se houvesse re-reeleição. E o primo não o decepcionou. Chega a ser até melhor, bem melhor, na opinião de inúmeras pessoas que ouvi na cidade.

Nos seus três anos de administração, esse prefeito fez coisas que a maioria não faz, como pagar em dia o salário dos servidores, inclusive o 13º. Implantou um serviço de coleta de lixo eficiente. Conseguiu da Copasa uma segunda captação de água para um bairro que surgiu em uma das saídas da cidade. O transporte escolar funciona bem nos três distritos e na zona rural. A cidade é limpa e bem cuidada. O sistema de saúde é mesmo único no município: tem um posto onde há sempre um dos três médicos, com enfermeira de plantão. As estradas vicinais, que levam aos distritos e às fazendas, estão sempre trafegáveis, mesmo no tempo “das águas”. Construiu e mantém uma creche para cerca de 100 crianças, o que é mais do que suficiente para as necessidades do pequeno município.

No mês de julho, a cidade faz a festa dos conterrâneos ausentes, com leilões, barraquinhas, shows de artistas conhecidos, especialmente duplas caipiras, cavalgada, tudo organizado e pago pela Prefeitura. Em massa, o povo comemora feliz.

Antes de me despedir daquela gente hospitaleira, perguntei a um dos servidores mais antigos como é que o prefeito consegue fazer tanta coisa, quando se sabe que os municípios vivem quase à míngua de recursos. A resposta que ele me deu foi definitiva: “É porque ele é um sujeito honesto. Não sabe roubar”.

Deixei a cidade convicto de que votaria nele para governador, se se candidatasse ao cargo. Nos dias de hoje, é uma virtude não saber roubar. Especialmente se quem não sabe é administrador público.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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