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08/03/2019 | domtotal.com

Sorria, você está na Bahia

O povo humilde parece não ter olhos para as próprias carências.

Apaixonei-me pela terra; morei, trabalhei no nordeste e fiz bons amigos.
Apaixonei-me pela terra; morei, trabalhei no nordeste e fiz bons amigos. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Refletindo sobre a latitude simbólica da Bahia – divide ao meio o território nacional, notaram? – sempre pensei nela como a síntese do Brasil; a zona de transição entre o sul/sudeste desenvolvido e o norte/nordeste nem tanto, abandonado há décadas. É na Bahia que mineiros e paulistas engravatados se permitem transgressões sazonais e primitivas, acompanhando o trio elétrico, braços erguidos ao ritmo da Ivete e do Chiclete. Foi também na Bahia que parte do nordeste integrou-se aos costumes e tendências do Brasil promissor dos anos 80, quando o turismo explodiu, abrindo vagas nos resorts das lindas praias.

E bote lindeza nisso. À exceção de Fernando de Noronha, com sua paisagem hors-concours, as praias baianas estão no topo das mais belas. Tive a sorte de conhecer muitas, ainda selvagens, ao produzir os vídeos do Projeto Tamar, anos atrás. Da Praia do Forte saíamos filmando tartarugas marinhas ao longo da costa baiana de areias brancas, coqueiros infindáveis e águas mornas e azuis.

Apaixonei-me pela terra; morei, trabalhei no nordeste e fiz bons amigos. No início foi difícil conviver com as diferenças culturais, digamos assim. Falo do ritmo dolente, do poder dos coronéis, de uma certa lentidão endêmica. Com tristeza, aprendi que a citada indolência nativa devia-se à falta de proteína na primeira infância – ou seja, à revoltante subnutrição que assola aquela gente esquecida e explorada sem dó.

Agora, tirando uma semana de férias, regressei à Bahia depois de muito tempo. E reforcei meu antigo conceito de que a Bahia continua um ícone, a síntese do luxo e do lixo deste país.

Os coronéis, por exemplo, só fizeram um upgrade nos seus modos. Donos de terras, engenhos, plantações, gado e fazendas de cacau hoje circulam em modernos SUV’s de vidros escuros pelas estradas empoeiradas e esburacadas do interior. Estradas que atravessam povoados miseráveis; ali continuamos a ver crianças barrigudas e seminuas sem escolas, vira-latas empesteados, casebres minúsculos onde sempre falta o reboco - mas jamais a antena de TV por satélite. 

O povo humilde parece não ter olhos para as próprias carências. Pudera: para salvá-lo desse mundo feio abrem-se as portas de blindex das igrejas universais, celestiais, monumentais, infernais – cada vez mais presentes. A TV também ajuda, exibindo as novelas, a ostentação dos artistas, as gírias e as modas cariocas aos adolescentes sedentos de alguma esperança. Nos rincões brasileiros, a TV permanece como a única e patética referência da vida que julgam feliz e desejável.

Ouvi relatos de residentes sobre a corrupção onipresente - que continua forte e imbatível em todos os níveis. Políticos e seus asseclas fazem prevalecer a lei do atraso: melhor manter tudo como está, não mexam em nada. Falta saúde, educação, dignidade. Um posto policial construído com doações de moradores foi abandonado logo após por falta de militares para operá-lo. Hoje, é um inusitado boteco que vende pastéis de camarão à beira da estrada.

A violência trazida pelas drogas se esbalda no grande vazio do desemprego, da falta de oportunidades, dos salários aviltantes daqueles cercados de riqueza, descaso e injustiça.

Num dos pontos mais charmosos e valorizados que visitei na Bahia está em construção o primeiro hotel seis estrelas do país, projeto de uma sofisticada rede internacional. Terá diárias astronômicas para um público exclusivíssimo. O local já conta com pista para jatos executivos e helicópteros que sobrevoarão serenos a triste carência nordestina e pousarão, tranquilos, nessa nova ilha da fantasia.                      

Então, seja bem-vindo, caro turista milionário. Aproveite o sol, o mar azul, a cerveja gelada, os pratos maravilhosos, a subserviência dos serviçais. Para não estragar suas férias, recomendo: feche os olhos para o que eu não pude fechar. Apenas sorria: você está na Bahia.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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