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11/03/2019 | domtotal.com

Era uma vez o cemitério do Carnaval

o som de bandinhas e trios elétricos, abre as porteiras da folia e solta nas ruas uma beleza de festa, animada por milhões de foliões.

Passou-se o tempo, mudaram-se os costumes, os bailes praticamente se extinguiram.
Passou-se o tempo, mudaram-se os costumes, os bailes praticamente se extinguiram. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Neste tempo de Quaresma, passado mais um Carnaval e sem nada a pensar, fico a me lembrar de carnavais passados. Aqueles dos tempos em que só se brincava entre quatro paredes. As paredes dos clubes. Era assim em Beagá.

Lembro-me dos bailes do DCE, na Rua Gonçalves Dias, onde rapazes só podiam entrar com carteirinha de universitário. Quanto às garotas, o ingresso não só era permitido como estimulado. Eram todas bem-vindas. O Minas Tênis promovia também grandes bailes e até desfiles de fantasias. Mas o salão parecia não ter vaga para pessoas “de cor”. Nunca vi a brincar ali um afrodescendente, que naquele tempo era chamado de preto. Ou, com muito favor, de negão ou “colored”. Os do Iate e do PIC (Pampulha Iate Clube), respectivamente do Marinheiro e do Havaí, eram também animados e igualmente seletivos. Entrei em vários desses bailes com minha carteirinha da Fenaj. Assim como no MTC, nunca vi “coloreds” por lá.

Havia os bailes do Jaraguá, sempre lotados da gente de classe meio média ligeira. Onde mais? Ah, sim, também se brincava no Mackenzie ou no Ginástico ou no Clube dos Tecelões, na Escola de Veterinária ou num salão da Avenida Getúlio Vargas. E havia os bailes da periferia, sempre entre quatro paredes.

Me vem à memória, especialmente, uma noite de terça-feira gorda no DCE. Salão cheio, a orquestra inundando o ambiente com antigas marchinhas. No palco, uma bela garota, loirinha, sozinha e soltinha, sambava à frente dos músicos. Usava um microvestido de renda, dentro e fora do qual exibia as pernas mais bonitas que nenhum Carnaval jamais mostrara. Cá de baixo eu não tirava os olhos dela. A um dado momento não pude me segurar e tomei a decisão heroica: dei a volta por trás, subi ao palco e, no centro nevrálgico do som ensurdecedor dos trombones, trompetes, pandeiros e surdos, tive de gritar no ouvido dela. Disse que tinha ido até lá só pra conferir se ela era real ou alucinação minha.

Fui, vi e venci. Pois não é que ela me olhou, me sorriu e adotou minha ousadia? Ao fim do baile, levei-a no meu Aero Willys para vermos juntos o nascer do Sol no alto da BR-3. E essa nossa visita ao Sol da manhã marcou o início de uma tórrida amizade colorida.

(Entre parênteses: a BR-3, hoje 040, foi cantada em festival por Toni Tornado, acompanhado do Trio Esperança, e ele deu ali os primeiros passos dos passos futuros de Michael Jackson. Duvida? Confira no Youtube).

Também havia, naquele tempo, desfiles das escolas de samba na Avenida Afonso Pena, quase sempre com os componentes usando fantasias de antigos desfiles das escolas do Rio de Janeiro, gentilmente cedidas aos carnavalescos de Belo Horizonte. A Prefeitura armava arquibancadas na avenida. Certa vez, a convite do colega Gabi Santos, grande repórter e carnavalesco, fui jurado em um desfile do segundo grupo. Uma lástima. Dei zero de cabo a rabo.

Passou-se o tempo, mudaram-se os costumes, os bailes praticamente se extinguiram. Depois de uma longa calmaria, durante a qual Beagá ficou conhecida como o cemitério do Carnaval, eis que a folia renasce abruptamente das cinzas. Ao som de bandinhas e trios elétricos, abre as porteiras da folia e solta nas ruas uma beleza de festa, animada por milhões de foliões.

É verdade que muitos se mostram despudorados e mal-educados, emporcalham a cidade e até praticam golden shower nos muros e jardins. Mas é só uma pequena maioria. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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