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12/03/2019 | domtotal.com

O Canetti que não conhecia

No 'O jogo dos olhos', Canetti narra a sua vida intelectual na Viena dos anos 30, sob a sombra da subida ao poder do ditador Adolf Hitler.

No “O jogo dos olhos”, Canetti narra a sua vida intelectual na Viena dos anos 30.
No “O jogo dos olhos”, Canetti narra a sua vida intelectual na Viena dos anos 30. Foto (Wikipedia Commons)
'O jogo dos olhos' você lê sobre isto e muito mais.
'O jogo dos olhos' você lê sobre isto e muito mais. Foto (Lev Chaim)

Por Lev Chaim*

Eu, meu caro leitor, quando gosto muito de um autor, de um livro específico, procuro encontrar outro exemplar para dar de presente a amigos chegados. Desta vez aconteceu com o fantástico “O jogo dos olhos”, de Elias Canetti, o terceiro volume de sua autobiografia. São livros que já não são mais impressos há anos e por isso tem que ser comprados no mercado de livros usados. Mas eu nunca os compro diretamente: vou à livraria da minha cidade e os encomendo. Assim, eles também podem ganhar algo com a ação. Isto para que todas as livrarias continuem a existir ainda por muitos e muitos anos. Elas fizeram e ainda fazem parte da minha vida e as desejo como parte das vidas das futuras gerações, dos que já nasceram e dos que ainda estão para nascer.

No “O jogo dos olhos”, Canetti narra a sua vida intelectual na Viena dos anos 30, sob a sombra da subida ao poder do ditador Adolf Hitler. Ele conta a sua convivência na capital austríaca com escritores que ele admirava e prezava pelo talento, tal qual Musil, Elliot, Thomas Mann e muitos outros. Ele se reuniam num sarau cultural na casa da escultora Anna Mahler, filha dos músicos Gustav Mahler e Alma Mahler. Nessas festas, os autores de obras ainda inéditas podiam ler os seus manuscritos para a seleta plateia. Era por meio dessas leituras que um editor decidia ou não publicar uma obra. Tudo dependia de como a leitura era recebida pela elite intelectual que estivesse ali no sarau de Anna Mahler. Em “O jogo dos olhos” você lê sobre isto e muito mais, inclusive os momentos íntimos do escritor com a esposa, as dúvidas de Canetti sobre seu próprio talento e tudo mais.

Quando recebi o livro da livraria, pedi para embrulhá-lo para presente e depois  fui à casa do pastor protestante da igreja próxima a minha casa, Frans Willem Verbas. Dei-lhe o livro e ele ficou felicíssimo e disse que era um livro que ainda não tinha. Em seguida, ele repassou comigo em sua biblioteca os títulos de Canetti, que tinha lido, em sua biblioteca. Foi então que me deparei com “Elias Canetti, a biografia”, de Sven Hanuschek. Nunca tinha ouvido falar sobre a existência dessa biografia. Frans disse que a havia comprado mas não a havia lido ainda. Sugeri tomá-la emprestada um dia, e ele a tirou da prateleira e me deu dizendo: pode levar pois, no momento, tenho mais coisas para ler e acabo de ganhar um livro do próprio Canetti. Então, eu a levei para casa: 579 páginas.

Depois de ler apenas quarenta páginas desse calhamaço todo, fiquei chocadíssimo com o outro Elias Canetti ali descrito e no qual quase não posso acreditar ainda. Vejam vocês: Canetti, mulherengo, imagem esta que não bate em nada com o que li em seus livros, onde ele nos conta tudo com muitos detalhes e também sobre a sua querida Veza Canetti, que tinha todo o cuidado para com a vida do esposo pessoal e intelectualmente falando. Quando ele estava intelectualmente abatido, era Veza que o reerguia. Nesta biografia não foi essa a descrição de Canetti. Li, ali, também, que Canetti tinha uma memória fotográfica e se recordava de cada assunto que havia conversado com amigos e conhecidos de anos atrás. O biógrafo revela que Canetti muitas vezes diminuía o seu interlocutor, fazendo com que ele acabasse por lhe contar coisas que não estavam em seus planos. E tem mais: essa biografia mencionou ainda que o escritor, já vencedor do Nobel de Literatura e morando em Zurique, na Suíça, após a Segunda Guerra, era distante das pessoas e as afastava ainda mais com frases do tipo: “Não me abrace. Consisto-me de grãos e posso me desmoronar”.

Depois disso, fechei essa biografia de Canetti escrita por Sven Hanuschek, com a intenção de não mais lê-la e devolvê-la ao Frans o mais rápido possível. Mas o que falar? Um sinal do meu falecido pai deu-me uma luz: a verdade. Que estava chocado com todas estas informações que acabavam por delinear um outro Elias Canetti que eu nem mais conhecia direito, apesar de já ser seu fã há anos e conhecer quase toda a sua obra. Ou termino de lê-la? Vou pensar mais um pouco.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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