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14/03/2019 | domtotal.com

Mais uma chance para o Brasil

O fim dos vinte anos da ditadura militar não devolveu ao brasileiro a capacidade de bem votar.

Bolsonaro faria um favor ao Brasil e a si mesmo se passasse a ouvir com atenção e seguir os conselhos desse seu vice.
Bolsonaro faria um favor ao Brasil e a si mesmo se passasse a ouvir com atenção e seguir os conselhos desse seu vice. (Agência Brasil)

Por Afonso Barroso*

Desde que o presidente Juscelino Kubitschek foi tirado covardemente da cena política pelos generais da chamada Revolução de 64, o Brasil tornou-se um país quase sem consciência eleitoral. O fim dos vinte anos da ditadura militar não devolveu ao brasileiro a capacidade de bem votar. Elegemos um Jânio louco, um Collor desmiolado, um FHC erudito e mau, um Lula corrupto até o mais recôndito fio da barba, uma Dilma incapaz, e agora um capitão meio destrambelhado. Não sei se tudo é fruto do desejo de mudar, de arriscar pra ver se dá certo, mas o certo é que nunca deu.

É preciso lembrar JK, porque ele foi o único presidente realmente preocupado com o Brasil. Queria e fez um país democrático, progressista, realizador. Sofreu críticas ferrenhas e oposição sem trégua, porque o brasileiro, sempre se mostra inabilidade para votar, é hábil em criticar por impulso e vocação. Como disse Nelson Rodrigues, brasileiro vaia até minuto de silêncio.

A verdade é que não houve presidente como Juscelino. Político de sorriso amplo e fácil, mineiro e brasileiro da gema, amante do violão de Dilermando Reis, do Montanhês Dancing, das serestas, da valsa, das mulheres e da modernidade. Mantinha em Belo Horizonte um apartamento clandestino para encontros amorosos, visitado por um único repórter, Jadir Barroso, que conta como foi em seu livro Meandros do Poder. Mas, tiradas as horas de namoro e lazer, JK trabalhava e realizava. Construiu usinas hidrelétricas, abriu estradas, implantou indústrias e operou o milagre de erguer Brasília do nada no deserto do Planalto Central. Democrata convicto e de coração grande, anistiou revoltosos que haviam iniciado um movimento frustrado para derrubada do seu governo. E passou a faixa presidencial em cerimônia exemplar e republicana. Não tive oportunidade de votar nele, porque não tinha idade para tal, mas votaria se os militares não o tivessem alijado da vida pública, impedindo sua candidatura a uma reeleição mais do que certa.

Brasileiro não sabe votar, disse Pelé para delírio dos críticos. Confesso que eu mesmo não sei, já que votei no Lula, no FHC, e agora temo não ter acertado de novo ao votar no Bolsonaro. Não, eu não condeno nem a mim nem aos demais brasileiros por isso. O que acontece é que sempre votamos com o viés da esperança. Ou às vezes pour faute de mieux, como diria eu se francês fosse. Elegemos FHC, culto e ególatra, que parece ter jurado amor eterno ao próprio umbigo. Elegemos o Lula porque o julgamos melhor do que o concorrente, mas erramos: era pior e meteu os nove dedos no erário. Elegemos a Dilma, corrupta, inculta e incompetente. Elegemos o Bolsonaro, que encarnava uma última esperança e começa, neste início de governo, a espalhar uma certa desconfiança, embora saibamos todos que não havia escolha melhor.  

Mas o Brasil tem agora uma chance que não pode ser desperdiçada. É a possibilidade de tocar uma administração eficiente. Trata-se de uma experiência que pode dar certo. Não custa tentar. O nome da nova esperança é o general Hamilton Mourão. Vejo nele um militar sem farda, ponderado, culto e por certo capaz de se dar bem como conselheiro. Bolsonaro nem precisaria renunciar e passar a ele a faixa e as rédeas da República. Mas faria um favor ao Brasil e a si mesmo se passasse a ouvir com atenção e seguir os conselhos desse seu vice. Conselhos sim, sem gritos de ordinário marcha ou meia volta volver. Apenas orientações ao pé do ouvido. Creio que isso conduziria o presidente a um governo produtivo e merecedor dos milhões de votos que o elegeram.

Assim penso eu, brasileiro comum que não sabe votar, mas está sempre cheio de fé neste Brasil que o excelente cronista Eduardo de Almeida Reis chamava de grande e bobo.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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