Religião

15/03/2019 | domtotal.com

Consumidores e consumidoras: isto nos define?

Experiências de consumo simulam as religiosas, mas seus resultados estão longe da integradora vivência do sagrado.

Capitalismo gera desejo nos que não podem consumir e promove o desperdício que transforma a Terra numa lixeira.
Capitalismo gera desejo nos que não podem consumir e promove o desperdício que transforma a Terra numa lixeira. (Unsplash/ Two Paddles Axe and Leatherwork)

Por Felipe Magalhães Francisco*

A imagem-comparação não é original, mas vale a alusão, neste Dom Especial em que refletimos a respeito do consumismo: shoppings são as catedrais do capitalismo. Tal como para a participação nas liturgias religiosas é necessária uma predisposição, para uma ida ao Templo de Mamon igualmente. Há toda uma ritualidade: procissões, pausas de oratório em oratório das entidades sagradas com as quais há mais afeto, comunhão por meio de alimentos e, ao fim, uma sensação de bem-estar e/ou contentamento tão parecida com o fascínio da experiência religiosa. Dentro de um shopping, a vivência do tempo é experienciada de modo diferente: é como se o mundo exterior não existisse e como se estivéssemos noutra dimensão, desplugada do mundo corriqueiro tão cheio de afazeres e pressas. Qual a diferença com a sensação de estar numa igreja ou templo?

Quem nunca se sentiu um pouco melhor, depois de um momento de tristeza, ao comprar alguma coisa, está no mundo errado. Fomos condicionados a uma sensação de bem-estar – muito passageira, é bem verdade – ligada ao ato de passar a possuir alguma coisa. Pode até ser que, após esse momento de apaziguamento, passemos a sentir culpa. Podemos pensar, por exemplo, que propagandas que entremeiam os programas de TV que costumamos assistir, não provocam nada em nós. Há toda uma ciência por trás da publicidade e propaganda que nos condicionam cada vez mais.

O planeta está entrando em colapso. Produzimos muito, o suficiente para que coisas jamais sejam consumidas. Mas há um custo que deveria, certamente, aterrorizar-nos: não há exageros quando se diz que,desde a Revolução Industrial, o planeta está em rápida destruição. O capitalismo produz uma massa de adoecidos, que insistem em adoecer, cada vez de modo mais veloz, nossa Casa Comum. A pretensão humana de reconhecer essa espécie como superior e, por isso, com direito à dominação e ao usufruto deliberado do mundo, impede-nos de que nos compreendamos como natureza, como parte de um sistema todo interligado e que possui uma inteligência orgânica de bem-viver. Mesmo entre os humanos, autocompreendidos como superiores, há uma hierarquização injusta e desumana, que impede um sem número de pessoas de possuir o mínimo para viver em dignidade. O consumismo é um privilégio para quem?

Os empobrecidos e empobrecidas esperam, cotidianamente, a chance de viver num mundo, em que a dignidade seja garantida a todos e todas. Essa dignidade, é urgente pensar, deve ser estendida e sonhada também para toda a natureza. Garantir a equidade social, não para que as pessoas possam consumir, desenfreadamente, mas para que todos e todas possam viver com o justo e o necessário para realizar seu ser pessoa, em comunhão com todo o mundo criado. O capitalismo é cruel desde sua raiz: incita o desejo daqueles e daquelas que não podem nada possuir, enquanto há um desperdício absurdo que transforma a Mãe Terra numa enorme lata de lixo. Os que podem consumir consomem de forma como se não houvesse consequência alguma para o meio em que vivem.

É Quaresma, tempo de rever caminhos e nos reorientarmos para uma vida que, de fato, tenha sentido. Hoje, o calendário aponta a data como sendo o Dia Mundial do Consumidor. Que seja um dia importante para avaliarmos, com consciência crítica e contrita, nosso papel como consumidores. Qual a marca que estamos deixando no mundo? Que os artigos que compõem esta matéria especial nos levem a uma autêntica reflexão e que sejamos capazes de assumir uma postura responsável frente ao mundo, começando a nos habituarmos com ações pontuais e concretas que nos revelem melhores habitantes para essa Casa que nos sustenta. Que a condição de zumbis infectados pela doença do capitalismo não nos defina, como consumidores e consumidoras irresponsáveis e irracionais.

Gustavo Ribeiro, no artigo Pobres sempre tereis: neoliberalismo e injustiça social, inicia a série de três artigos, pontuando a problemática numa perspectiva crítica. A partir de uma citação que remete a uma fala do próprio Jesus, o autor chama a atenção para a interpretação legítima da referida fala, ajudando-nos a compreender a dimensão perversa deste sistema que produz morte.

Abordando teologicamente a questão, Fabrício Veliq propõe o artigo O consumismo como atentado contra a criação. No texto, o autor parte da concepção de natureza, compreendida de modo orgânico e integral, para provocar a reflexão a respeito da relação que devemos estabelecer com o mundo criado. Os cristãos e cristãs, pela fé que professam, têm um papel responsável que nasce da própria ética cristã que, em última instância, revela uma profunda ética humana.

Por fim, Teófilo da Silva aborda a temática do consumismo na ambiência virtual, no artigo Consumismo digital. Com o excesso de informações que a todo momento nos chegam, vamos acumulando dados que, muitas vezes, comprometem nosso senso crítico e nos levam a acreditar em inverdades absurdas, que trazem sérias e graves consequências para a vida cotidiana. Nessa direção, também conteúdos religiosos compõem essa gama de informações, que não significam demonstração verdadeira de comprometimento de fé, na vida.

 Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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