Religião

15/03/2019 | domtotal.com

Pobres sempre tereis: neoliberalismo e injustiça social

Práticas caritativas não podem ser anestésicos para a consciência de que participamos na manutenção da injustiça social e não fizemos a opção cristã pelo pobre.

Colocar-se ao lado dos pobres, como cristão, é reconhecer que as opressões sofridas pelos mais pobres são, também, consequências das nossas escolhas.
Colocar-se ao lado dos pobres, como cristão, é reconhecer que as opressões sofridas pelos mais pobres são, também, consequências das nossas escolhas. (Anh Vy/ Unsplash)

Por Gustavo Ribeiro*

Poderíamos desanuviar nossas consciências lembrando da frase de Jesus “pobres sempre tereis” (cf. Mt 26,11; Mc 14,7; Jo 12,8). Poderíamos nos ancorar nela para justificar as inúmeras injustiças que nos rodeiam, sobretudo, para nos desculparmos da desigualdade social que nos divide em 99% contra 1%. Ou seja, os 99% da população que mesmo juntos não possuímos o que o 1% detém de capital e poder1.

Leia também:

Vivemos em uma sociedade capitalista neoliberal, na qual nossas relações estão todas baseadas em trocas monetárias e como nos lembra o filósofo camaronês Achille Mbembe, “o neoliberalismo baseia-se na visão segundo a qual "todos os acontecimentos e todas as situações do mundo vivo (podem) deter um valor no mercado".

O neoliberalismo econômico, segundo Mbembe, “é a época ao longo da qual o tempo (curto) se presta a ser convertido em força reprodutiva da forma-dinheiro”. E isso não molda somente as trocas exclusivamente econômicas, mas influencia nosso comportamento, levando-nos a transformar toda e qualquer situação em um número ou um valor de moeda. Não há mais relação que não possa ser quantificada, monetizada e capitalizada.

O sistema econômico é, também, um sistema político, porque ele controla nosso modo de organização social. E, em seu modus operandi, ele controla partidos, lideranças, parlamentares e construção de políticas públicas, sempre jogando em favor de seus próprios interesses, muitas vezes espúrios e antipopulares.

A política tem sido o meio de legitimar e controlar, aumentando cada vez mais o enorme fosso que separa os interesses da elite econômica das necessidades reais do povo. Um Estado que supre bem a população em suas demandas, fornecendo-lhe saúde, educação, moradia, infraestrutura de qualidade, não serve de aliado aos planos do capital, que necessita vender como mercadoria, tudo que, em tese, é tarefa do Estado. E a ausência do Estado junto àqueles que não possuem possibilidade de compra destes serviços coloca uma enorme parcela da população em situações precárias e desumanas.

Vivemos num tempo em que se aprofundam as desigualdades, embora nos pareça, por uma falsa sensação, por conta da globalização da informação e das mídias sociais, que existe um movimento de ascensão e um equilíbrio nos acessos, por conta do consumo.

A sensação do “poder de consumo” é ilusória, porque não necessariamente se trata de uma conquista pessoal, mas, sim, de uma artificialidade do mercado (ou do Estado, em se tratando de programas assistenciais de “redistribuição” de renda), para estímulo da produção e, consequentemente, para o aumento do capital, devolvendo em cifras maiores aos investidores todo o capital investido.

É claro que o problema não é que haja dinheiro, capital, venda da força de trabalho, mercantilização etc. O acento do problema está no acúmulo e na manutenção das desigualdades, que se agravam quando pormenorizamos a análise e fazemos recortes de gênero, sexualidade e raça. Uma mulher negra, por exemplo, que tem muito mais chances de viver na periferia e não chegar a receber um salário mínimo; diferentemente de um homem branco heterossexual, o humano universal, a régua da sociedade. O que está abaixo do homem branco heterossexual é o “outro” (a mulher banca, o homem negro); a mulher negra é a última escala, o “outro do outro”, porque é mulher e não é branca2. O racismo é, também, um forte sintoma do poder excludente do mercado neoliberal, assim como a violência de gênero e de sexualidade.

É sempre importante lembrar que “este movimento caracteriza-se também pela produção da indiferença, a codificação paranoica da vida social em normas, categorias e números, assim como por diversas operações de abstração que pretendem racionalizar o mundo a partir de lógicas empresariais”, como ressalta Mbembe. Lógicas estas que são excessivamente excludentes e separa as pessoas entre consumidores, potenciais consumidores e pobres.

Existem mecanismos que o sistema utiliza para nos fazer acreditar que a injustiça social é fruto de nossa escolha individual e, quase sempre, o cristianismo foi (e ainda o é) o suporte para esta consciência através da deturpação da caridade. Acreditar que sempre haverá pobres e que as nossas crises de consciência ocasionais são aplacadas por algumas simples ações caritativas faz manutenção da desigualdade como sendo uma realidade comum, natural, às vezes, até fruto da vontade divina, porque Deus, afinal, premia os justos, ou seja, os que se esforçam, os que meritocraticamente fazem por merecer. 

O que é totalmente o contrário do que percebemos do Evangelho, dado que Jesus “não fala de pobreza abstratamente, mas daqueles pobres com os quais trata enquanto percorre as aldeias. Famílias que sobrevivem miseravelmente, pessoas que lutam para não perder suas terras e sua honra, crianças ameaçadas pela fome e pela doença, prostitutas e mendigos desprezados por todos... aldeias inteiras que vivem sob a opressão das elites urbanas, sofrendo o desprezo e a humilhação” (Pagola, p. 131).

O teólogo espanhol Benjamín Buelta nos lembra que a “vida de Jesus parece ex-cêntrica”, porque, justamente, não coaduna “nem se ajusta com a construção social de todos aqueles que controlam o mundo a partir do centro, transformando a opressão em ordem e a exclusão em costume razoável”. 

Jesus e os pobres e a consequente tarefa da Igreja de se colocar ao lado dos últimos não se dá por uma simples opção, não é um fetiche, é um imperativo ético. Colocar-se ao lado dos pobres, como cristão, é reconhecer que as opressões sofridas pelos mais pobres são, também, consequências das nossas escolhas. Continuar a fazer manutenção do capitalismo em sua forma mais selvagem, estimula a pobreza e nos vincula ao lado opressor. Justamente porque a injustiça é um pacto coletivo, societário. Nós, de maneira individual, somos vítimas e manutenção desta consciência. Vítimas, porque ela já existia quando tomamos consciência do mundo. E manutenção, quando escolhemos deliberadamente não mudar nossos hábitos e não lutar para que outro mundo possível possa existir.

Sempre haverá pobres, mas não porque é natural, mas porque nós temos optado por fazer manutenção da pobreza, romantizando o pobre e nunca lutando com ele para a superação das estruturas de opressão.

Por isso, está diante de todos nós uma grande tarefa: “Trabalhar para criar uma ordem diferente... unir a parte de pessoas que está faminta com a que deseja liberdade, a fim de que todos possam ter pão e liberdade (Merton apud Bertelli, p. 86). E “o que se nos apresenta são as possibilidades de possuirmos “uma existência humana autêntica; uma vida livre, uma liberdade que é processo e conquista histórica” (Gutiérrez apud Moltmann, p. 203) e que precisa nos libertar das amarras do egoísmo de permanecermos estáticos ante o poder opressor do acúmulo do capital, do monopólio dos meios de produção e da propaganda que nos cega, impedindo-nos de nos enxergarmos como irmãos e não como mercadorias ou consumidores.

Referências bibliográficas:

BUELTA, Bejamín González. Depois das utopias: Sinais e parábolas para fazer a história. São Paulo: Loyola, 1993.
BERTELLI, Getúlio Antônio. Mística e compaixão: A teologia do seguimento de Jesus em Thomas Merton. São Paulo: Paulinas, 2008.
PAGOLA, José Antonio. Jesus: Aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2007.
MOLTMANN, Jüger. Experiências de reflexão teológica: Caminhos e formas da teologia cristã. São Leopoldo: Unisinos, 2004.
MÜLLER, Gerhard Ludwig. Pobre para os pobres: A missão da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2014.

Notas:

[1] Claro que esta é uma forma bastante genérica, embora aproximada, de descrever os números da desigualdade de capital. Para uma leitura pormenorizada e histórica da distribuição, produção e acúmulo de riquezas indico PIKETTY, Thomas. O Capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

[2] “Nesse esquema, a mulher negra só pode ser o outro, e nunca si mesma. Mulheres brancas tem um oscilante status, enquanto si mesmas e enquanto o “outro” do homem branco, pois são brancas, mas não homens; homens negros exercem a função de oponentes dos homens brancos, por serem possíveis competidores na conquista de mulheres brancas, pois são homens, mas não brancos; mulheres negras, entretanto, não são nem brancas, nem homens, e exercem a função de o “outro do outro””. Grada Kilomba in Plantation memories: Episodes of everyday racism, p. 124.

*Gustavo Ribeiro – Mineiro de São Vicente de Minas, residente, por ora, em Belo Horizonte. É Bacharel em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino; Pós-graduando em Gerenciamento de Projetos pela PUC Minas. Atua como Coordenador de Pastoral do Centro Franciscano de Defesa de Direitos e Coordenador Pedagógico da Rede Educafro Minas. E vive na tentativa de ser poeta, mas isto só quando sobra tempo, e quase nunca sobra.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas