Religião

15/03/2019 | domtotal.com

O consumismo como atentado contra a criação

Com o grande consumismo que advém como consequência do capitalismo, a destruição dos recursos naturais segue em ritmos alarmantes.

O consumo desenfreado e a lógica do descarte fazem parte de um modo não cristão de lidar com a criação.
O consumo desenfreado e a lógica do descarte fazem parte de um modo não cristão de lidar com a criação. (Simson Petrol/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

A natureza sempre esteve presente na vida humana, sendo até mesmo condição para a sua existência. As primeiras religiões das quais temos notícias eram também religiões para as quais o ciclo natural, as árvores, o sol, a lua, estrelas e toda gama de astros celestiais eram muito mais do que meros astros, sendo muitas vezes considerados como deuses, como é percebido nas religiões egípcias, babilônicas, persas e tantas outras que poderíamos colocar nesse bojo. A natureza, dessa forma, possuía um grande status para essas civilizações.

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A religião judaica, na voz de seus rabinos, escribas e sacerdotes, deram à natureza um caráter de santidade não por si mesma, mas, sim por dizerem que esta é obra do Deus de Israel, o criador dos céus e da terra, sendo, portanto, necessário que esta fosse respeitada e cuidada por todos e todas. A Torá revela bem essa característica. São diversos os textos que mostram a necessidade do descanso da terra e do respeito aos ciclos naturais.

No Novo Testamento, da mesma forma, é possível perceber o cuidado com o qual Jesus fala sobre a natureza e seus elementos, usando-os diversas vezes em suas parábolas.

Com o advento da Modernidade, a leitura de que a natureza existia para ser dominada começa a ganhar mais força do que tinha nos primeiros escritos que traziam esse tipo de leitura. Afinal, se o ser humano é visto como a coroa da criação e superior a toda ela, então a natureza deve ser entendida como algo que deve ser explorado e até mesmo forçado a dizer seus segredos, como dizia Francis Bacon em seu "Novum Organun".

Com essa mentalidade, vemos surgir em nosso mundo uma exploração da natureza para a produção de bens para o consumo humano. Em nome do progresso que advém do pensamento moderno, passando pelas revoluções industriais, a natureza passou a ser vista como material para exploração sem limites por parte daqueles e daquelas que desconsideram os ciclos, tempos e necessidades dessa mesma natureza.

Na contemporaneidade, com o grande consumismo que advém como consequência do próprio capitalismo, a destruição dos recursos naturais segue em ritmos alarmantes, em que milhões de hectares de florestas têm se perdido; cidades têm sido destruídas por causa da mineração, como ocorreu recentemente em Brumadinho e em Mariana; calotas polares têm sido derretidas por causa do aquecimento global insuflado por gases tóxicos jogados diariamente na atmosfera; há um aumento da poluição nos grandes centros urbanos, como Pequim, Nova York e São Paulo, que fazem com que diversas pessoas sofram com doenças pulmonares.

Ao mesmo tempo, para que se produzam mais componentes eletrônicos e bens de consumo que satisfazem uma parcela pequena da população, mares são poluídos, a vida marinha é condenada à extinção, florestas são dizimadas, entre tantos outros exemplos que podemos citar de como o consumismo, em tempos atuais, tem sido um dos grandes responsáveis pela destruição ambiental que acontece em ritmos frenéticos em nossa sociedade atual, causando, assim, um atentado contra a própria criação.

Diante disso, como cristãos e cristãs, é importante lembrar a importância da natureza como obra da criação, como algo que deve ser cuidado e usado de maneira responsável pelo ser humano. Esse ser humano, por sua vez, não deve ser visto como o suprassumo da criação, antes, por ter sido criado por último, deve ser visto como o mais dependente de toda ela, como nos mostra o teólogo alemão Jürgen Moltmann, em seu livro "The Fullness of Life".

A natureza, por mais forte que seja, se não for cuidada, pode se acabar por causa da destruição humana. Esse ser humano, por sua vez, somente vive se a natureza viver, de maneira que podemos dizer que todo e qualquer atentado contra a natureza é também um atentado contra a própria vida humana.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com.

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