Religião

15/03/2019 | domtotal.com

Consumismo digital

O consumismo alcançou a ambiência digital, gerando um fluxo informativo que não conseguimos absorver ou posicionarmo-nos criticamente.

O consumismo digital chegou a níveis tóxicos.
O consumismo digital chegou a níveis tóxicos. (Jens Johnsson/ Unsplash)

Por Teófilo da Silva*

Quem tem a palavra, tem o poder. Ninguém duvida ou é mais ingênuo ao ponto de não saber a influência que a grande mídia, que em nosso país é oligárquica, tem sobre questões fundamentais do país. Cedidas à tentação capitalista, as grandes empresas de mídias do país são inteiramente submetidas ao mercado financeiro, muitas vezes atuando contra os interesses do próprio país. Nossa história recente está permeada de fatos que revelam isso. Por muito tempo, elas controlavam, segundo interesses muito bem estabelecidos, o que a população teria conhecimento e o modo como conheceriam.

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A internet quebrou, de maneira significativa, a detenção da palavra: a mídia oligárquica continua atuando como sempre, mas não detém, sozinha, o poder da narrativa. Qualquer pessoa munida de um smartphone e um sinal 3G tem o poder de gerar notícias. Os acontecimentos se pulverizam de maneira instantânea: o tempo todo temos a oportunidade de nos inteirar a respeito de tudo com narrativas múltiplas. Cresceu a possibilidade de os cidadãos e cidadãs manifestarem uma opinião: todo mundo pode participar do debate; pessoas em lugares tão distantes têm a possibilidade de se reconhecerem, ideologicamente, a partir da visão de mundo que detêm. Tudo isso, claro, não é um mar de rosas, nós bem sabemos.

Com a disseminação do poder da palavra, veio também a possibilidade de as pessoas poderem manifestar aquilo que realmente pensam, mas que não tinham a coragem de dizer publicamente, ancoradas por perfis, muitas vezes falsos, que garantiriam a proteção das verdadeiras identidades. Agora, nem isso já é mais preciso: portando fotos verdadeiras, informações reais sobre as próprias vidas, as pessoas já não têm medo de tornar público o que de mais sombrio elas carregam, tudo travestido de bons valores, muitas vezes de inspiração religiosa. Quem dedica tempo a ler comentários das mais variadas postagens consegue perceber o quão tóxicas as pessoas conseguem ser.

Junto a tudo isso, veio um extrapolar de conteúdos que ninguém consegue absorver. O tempo todo, conteúdos dos mais variados temas e enfoques nos chegam. E ficamos cada vez mais dependentes do smartphone para tudo, sem podermos nos proteger dessa avalanche de coisas que nos chegam a todo momento. O consumismo alcançou a ambiência digital, pois não basta que apenas recebamos, a todo momento, nós também reproduzimos, ao compartilhar com uma legião de contatos aquilo que nos chamou a atenção. Há muito o que se aproveita desses conteúdos; mas superabundam os conteúdos que de nada valem e que nada acrescentam.

Chegamos a um momento em que consumimos, freneticamente, conteúdos tão absurdos pelas mídias sociais, que podemos duvidar de nossa capacidade crítica. A internet criou um mundo paralelo com total influência sobre o mundo real: temos um presidente da República que foi eleito graças a notícias falsas e, o mais espantoso, a sua maioria com conteúdos impossíveis em qualquer realidade com o mínimo de lucidez. E esse presidente, do alto de sua posição de poder, continua a espalhar essas notícias para atacar pessoas e instituições, enquanto ele próprio acusa de fakenews aquilo que foi publicado por seu próprio governo, no "Diário Oficial da União". Isso é apenas um sintoma, muito grave, certamente, do quão adoecidos estamos, por nos permitir entrar na lógica de um consumismo digital.

Para as religiões proselitistas, a internet veio como grande parceira em sua missão de anúncio, evangelização e propagação de seus valores e doutrinas. Para outras religiões, veio como possibilidade de que as pessoas pudessem melhor conhecer seus ritos, elementos teológicos, valores espirituais... Mas, junto a tudo isso, veio também o extrapolar: há um excesso de religião sendo propagada nas redes, que fugiu do escopo das instituições religiosas: da mesma maneira que todo mundo tem o poder de criar e gerar notícias, toda pessoa religiosa é capaz de produzir e reproduzir materiais religiosos, muitas vezes de consistência duvidosa. Da mesma maneira como o capitalismo se apropriou do discurso religioso para aumentar seu alcance e influência, tornando os religiosos consumidores perfeitos, a falta de critérios e consciência crítica nos trouxe a esse excesso de religião nas mídias sociais que tem por grande problema a desvinculação com a vida real. É possível, pois, que em meu perfil eu tenha um sem número de postagens sobre o amor de Deus e que, nos comentários em postagens alheias, eu destile um ódio muito mais real que a experiência do amor de Deus, que eu julgo viver.

É preciso uma desintoxicação!

*Teófilo da Silva, teólogo e poeta.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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